
"Conhece a ti mesmo", já aconselhavam a inscrição no templo de Delfos eo sábio Sócrates, na Grécia antiga. Pois o mesmo conselho vale para nós como nação, por que não?
Recentemente, li dois livros em seqüência que, ainda que sem propósito, guardam estreita relação. O primeiro deles é o "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro, lançado em 1984 e considerado um clássico da literatura brasileira contemporânea. O outro é "A cabeça do Brasileiro", de Alberto Carlos de Almeida, lançado em 2007 e tendo por base os resultados da PESB (Pesquisa Social Brasileira).
O que estes dois livros têm em comum? O primeiro livro é um romance que acompanha brancos, negros e índios desde o final dos conflitos da independência na Bahia até os anos 70 - ainda que exista um capítulo que se passa em meados do século XVII - passando pela Guerra dos Farrapos, do Paraguai, pela proclamação da República, e pela ditadura militar. Existem várias maneiras de ler o livro.A primeira delas é seguir a história e curtir uma narrativa envolvente, simples porém bem estruturada, temperada como misticismo típico da Bahia e do Brasil.A segunda é a leitura "social", sob a tônica do conflito de classes, a análise do discurso elite vs. povo de personagens como o Barão de Pirapuama, Amleto Ferreira e Bonifácio Odulfo, de um lado, e do outro Vevé, Maria Da Fé e Patrício Macário. Esta leitura talvez seja a mais comum na crítica literária, que tradicionalmente contextualiza o livro no esforço de construção de uma identidade literária brasileira e na revisão da historiografia tradicional acerca de eventos como a Guerra do Paraguai e Proclamação da República, e no papel social de instituições como o Clero e o Exército.
Uma terceira leitura - não excludente, diga-se - é a que busca analisar o discurso dos personagens (principalmente os brancos ou os negros/pardos que ascenderam socialmente) e capturar a ética da época, o modo de pensar da sociedade. Existem alguns trechos do livro em que isto fica bastante evidente, como na querela entre o Monsenhor e Amleto Ferreira (na época em que era apenas o guarda-livros mestiço do Sr. Barão), em que fica evidenciada a tese de que inteligência, bons modos etc. são condicionados pela cor da pele e pela origem geográfica - e os mestiços são o "meio do caminho", o que não necessariamente é bom. Ou mesmo no trecho em que Bonifácio Odulfo, em Lisboa, começa a discorrer sobre o efeito disciplinador das estações do ano bem definidas, concluindo que o Brasil nunca poderia ser uma nação desenvolvida; o calor típico do Brasil estimula a preguiça, a luxúria, a vilidade.
Por sua vez, o livro de Alberto Carlos traz os resultados da Pesquisa Social Brasileira (PESB), pesquisa de opinião que entrevistou brasileiros de forma aleatória a fim de captar o pensamento brasileiro acerca de temas como corrupção, "jeitinho", sexualidade, papel do Estado, cor e raça, destino, família, e outros. Ainda que alguns questionem a metodologia da pesquisa – de fato, a edição do livro peca por não trazer os detalhes metodológicos da pesquisa, como plano amostral e questionário aplicado - o perfil do brasileiro médio que emerge das estatísticas é o de um indivíduo patrimonialista, tolerante à corrupção, familista (só confia em pessoas da família), estatista (segundo o autor, brasileiro ama o Estado e acha que ele deve cuidar de tudo, inclusive atividade bancária, energia elétrica e telefonia) fatalista (o futuro a Deus pertence, e pouco se pode fazer a respeito), pouco tolerante ao homossexualismo e preconceituoso com respeito à cor. Contudo, como já dizia o professor Mário Henrique Simonsen, as médias enganam; o sujeito pode estar com a cabeça no forno e os pés no congelador e a temperatura média ser 36,5 º C. Neste caso, a analogia da Belíndia (mistura, num mesmo país, de uma Bélgica com Índia) também é válida: o pensamento médio é reflexo, de um lado, de uma mentalidade mais arcaica ligada aos brasileiros de menor escolaridade e habitantes do interior, e do outro da mentalidade mais moderna e liberal associada aos segmentos de mais alta escolaridade e residente nas capitais. Para o autor, a solução da “Belíndia” é a massificação do ensino superior; à medida que as pessoas se escolarizam, elas tendem a apresentar uma mentalidade mais liberal e mais próximas aos países desenvolvidos. Contudo, atento para um “limite superior” para este processo. Por exemplo, a partir da pesquisa é possível verificar que mesmo o segmento mais liberal do Brasil – jovem, com nível superior e residente em uma capital – o “jeitinho” brasileiro materializado em guardar lugar na fila, ser atendido antes no hospital por ser amigo do médico e outras práticas semelhantes conta com apoio social de 23% dos indivíduos. Por isso mesmo, considero um equívoco, como a revista Veja propõe, a interpretação do livro de que as elites são o “farol de modernidade” no Brasil. Até mesmo porque conceito de elite não se circunscreve à escolaridade - existem elites políticas que são profundamente arcaicas.
A interseção dos dois livros se dá no reflexo do “pensamento brasileiro”. Enquanto um dos livros coloca o discurso do brasileiro em prosa, o outro o coloca em tabulações e planilhas. Convido o leitor deste blog a ler os dois últimos capítulos do livro de João Ubaldo (que se passam nos anos 70, portanto mais próximos à atualidade) e ler os dois primeiros capítulos do livro de Alberto Carlos e perceber que os “jeitinhos” empregados pelos personagens - pertencentes à elite - para situações como aborto, financiamento público para projetos empresariais fadados ao fracasso, confusão entre público e privado, e outras em verdade contam com amplo apoio social entre nós, brasileiros.
[]´s e boa leitura!
BC
Grande BC, li com muita atenção o seu comentário, que na verdade é mais uma teses de doutorado.
Aprecie muito o que esse grande Guitarra do Móveis escreve, demonstrando inteligência, percepção politico-económico-social.
Vc. assim como os outros membros da fantástica Banda Móveis Coloniais de Acajú, nos fazem perceber que vcs. não são uma Banda qualquer, mas que possuem consciência política e de lambuja nos brindam com magníficos shows Brasil afora.
Parabéns meu rapaz!!!
Chego dia 19 para o tão esperado Móveis Convida.Abração!!!
O povo brasileiro é um mosaicode incoerências. E como tudo, isso tem a sua dor e a sua delícia. Mas acho que João Ubaldo conseguiu, com Ninguem captar os porques históricos de nossa sociedade
O (re)contar da história em Viva o Povo Brasileiro, de Liliam da Silva
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