A expressão do novo rock no parque
Fonte: Estado de São Paulo | Autor: Lauro Lisboa Garcia | Data: 13/01/2010 | 1 comentário
Macaco Bong - Siba e metais na parede sonora
Quatro das bandas mais representativas do rock brasileiro da primeira década deste século estarão reunidas no Festival Alto Verão, que começa na sexta-feira no Auditório Ibirapuera. Duas instrumentais (a cuiabana Macaco Bong e a paulistana Hurtmold) e duas com vocais (Cidadão Instigado, de Fortaleza, e Móveis Coloniais de Acaju) dão um bom panorama da produção atual, em que a experimentação dialoga livremente com a atitude pop. São todos considerados expoentes da "cena independente". Na verdade, não há outra, é só nela que está o que interessa no rock brasileiro atual.
O idealizador do festival é Pena Schmidt, atual superintendente do Auditório, que tem larga experiência na produção de discos de música brasileira de diversos estilos, incluindo bandas de peso como Titãs (destacando o antológico Cabeça Dinossauro), Camisa de Vênus e Ira!, entre outras. Para ele, a década de 1980 é "muito naïve para esses dez que estão chegando". "Hoje são jovens mais complexos, o instrumental que eles estão tocando hoje não tem comparação com o que se fazia."
Sobre essas bandas escolhidas para "mostrar que existe uma cena nova", Schmidt diz que gosta muito da musicalidade delas, cada um seguindo um caminho próprio, "com muita personalidade de estilo". Do Cidadão, Schmidt destaca o fato de ser uma banda que pode ir de um lado para outro com a maior elegância, "um rock energético que chega a ser cerebral". "Catatau é um arranjador nato. Em tudo que ele põe a mão, põe ordem." O Macaco Bong é uma nota atrás da outra, sem nexo nem espaço para respirar. "Não estão fazendo melodia mais. E é música com M maiúsculo. Com todo respeito, o Sepultura fica uma bandinha melódica perto deles." Os Móveis, tocando junto, aprenderam a "abrir os espaços individuais, que é a melhor escola de produção possível, conseguir orquestrar para que todo mundo toque e não se perca ninguém".
Abrir o calendário do Auditório com essas quatro bandas juntas é para ele muito significativo. "Mais do que comemorar o verão, as férias e trazer um programa para quem ficou na cidade, é importante chamar a atenção para olhar para esses caras novos. O ano vai ser deles", aposta. "Aliás, a década será deles. Eles fazem parte da década que chega, não da que vai embora. Eles estavam se desenvolvendo, se exercitando, fazendo festivais pequenos, conhecendo o Brasil, mas acho que agora começam a chegar a um estágio mais amplo, menos do gueto. São bandas de caráter nacional."
Com cinco anos de existência e apenas um EP e um álbum lançados, o Macaco Bong é a mais incensada expressão de uma tendência crescente de boas bandas: a do rock instrumental. Sem deixar brecha para respirar, o power trio de Cuiabá faz apresentações demolidoras, como a que conquistou até o público do Sepultura na Feira Música Brasil, em dezembro, no Recife. No mesmo evento, o Cidadão e os Móveis também não deixaram por menos, dando o sangue em shows consagradores para grandes plateias.
"Aquele do Recife foi um dos três melhores shows da nossa carreira, não só pelo público, mas por estarmos numa feira representativa da música do Brasil, que tem repercussão internacional, e por termos tocado bem", diz o baixista Ney Hugo. "Este do Ibirapuera, por antecipação, já é outro dos mais importantes." É que dentro de sua parede sonora - sedimentada em heavy metal, mas aberta a diversas influências, como a música tradicional do Mato Grosso e improvisos jazzísticos - o Macaco vai agregar a rabeca de Siba, os metais dos Móveis, o piano de Vitor Araújo e a percussão de Jack, do Porcas Borboletas. "Não mudamos a estrutura das músicas, a gente aplica a linguagem deles num tempo a mais, num momento de improviso. Englobamos tudo que a gente gosta, não temos um estilo preferido."
E não é por estar num ambiente menor e fechado que eles vão tocar com menos peso - com volume mais baixo, talvez, mas com a mesma intensidade. Além dos temas do álbum Artista Igual Pedreiro, há um novo, Um Sol Bem Quente, que em breve estará disponível para download, segundo Ney. Seus temas duram de 7 a 10 minutos, a música cresce e vira uma jam session, com a guitarrista substituindo a melodia da voz. Os caminhos trilhados são inusitados, é uma surpresa atrás da outra.
Programação
MACACO BONG - sexta e sábado, 21h
HURTMOLD - domingo, 19h
MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU - dias 22 e 23, 21h
CIDADÃO INSTIGADO - dia 24, 19h
Na compra de 1 ingresso para cada show, pacote por R$ 80 e R$ 40 (meia). Só até hoje na bilheteria do Auditório Ibirapuera
MóveisPOPULAR: É inegável, pela repercussão estrondosa de seus shows mais recentes em festivais, que os Móveis Coloniais de Acaju crescem não só artisticamente, mas em popularidade. Entre os trunfos da superbanda de Brasília estão a força sonora e cênica do naipe de metais, canções facilmente assimiláveis e tocadas com garra, a voz, o carisma e a animação de André González. É rock, mas não só. Em seu caldeirão sonoro há elementos de ska, funk, influências das fanfarras do Leste Europeu e espaço para improvisos. "Tem a alegria e tem a verdade. A gente quer dividir as ideias de forma franca com o público", diz González. "Sempre tivemos dificuldade em definir nosso estilo e durante muito tempo falamos da tal "feijoada búlgara", mas acho que é ruim a gente se fechar num estilo ou num público, porque a gente quer ampliar os nossos horizontes."
Em 11 anos de atividade, o grupo lançou dois álbuns, Idem (2005) e C_ompl_te (2009), e vai fazer um apanhado da carreira nos shows do Ibirapuera e registrar em áudio e vídeo. O show deve ser exibido pelo Canal Brasil e depois ser lançado em DVD. No roteiro, uma canção inédita sobre tartarugas, Mergulha e Voa, em homenagem aos 30 anos do projeto Tamar.
Cidadão
INTERAÇÃO: Fernando Catatau, guitarrista, produtor, compositor, arranjador, vocalista e idealizador do Cidadão Instigado, já é referência do melhor pop-rock brasileiro produzido nesta virada de década. No entanto, o que ele procura com sua banda é cada vez mais a interação entre todos os músicos. No promissor panorama geral, o Cidadão é um dos grupos que vivem um momento significativo, com o lançamento do quarto trabalho, Uhuuu!, presente nas listas mais confiáveis dos melhores de 2009.
"Fico muito feliz com o retorno que a gente está tendo com o disco, porque é bem sincero, foi feito com muito trabalho, demoramos muito tempo para poder finalizar", diz Catatau. "Concordo que a gente vive um momento bom, com vários discos legais saindo, várias bandas legais tocando. Pra gente é até difícil falar, é um prosseguimento da nossa carreira. Tocamos juntos há 12 anos e cada vez a gente se entende mais, um sem o outro não funciona." No palco, o som da banda - que soma ao rock influências do brega romântico, da guitarrada e de elementos nordestinos - tem uma pegada ainda mais incisiva do que nas gravações. Além das canções do novo álbum, eles tocam outras mais antigas no Ibirapuera.
Hurtmold
RETORNO: O Festival Alto Verão apresenta possibilidades distintas para cada uma das bandas participantes. Para o Hurtmold, única representante de São Paulo, significa também a oportunidade de voltar a tocar em seu berço. Há cerca de seis meses sem se apresentar na cidade, o grupo, que acompanhou Marcelo Camelo durante um ano, mostrará inéditas no palco do Ibirapuera.
Embora a banda defina as músicas que serão tocadas nos shows poucas horas antes de entrar em cena, pelo fato de os integrantes caminharem na contramão da mesmice, o Hurtmold deve revelar ao público pelo menos metade do repertório de dez músicas com inéditas. "O distanciamento de São Paulo foi uma parada intencional, por estar tocando aqui com o Marcelo. A gente evita sair marcando um monte de show pra não cair no mesmo circuito e tocar sempre para o mesmo público. Teve gente que até pensou "poxa, os caras nem tocam mais". Mas esse tempo foi bom pra gente compor nossas músicas com calma. Foi tudo meio perfeito", diz o baterista Mauricio Takara.
Em um show completamente imprevisível, o Hurtmold ainda tem suas raízes muito fincadas no rock, embora saiba fazer diferente e fugir dos padrões. No palco, é como se os seis integrantes do grupo estivessem diante de um papel em branco, munidos de uma infinidade de tintas e pincéis. Com cada um dos músicos tocando mais de um instrumento e pensando os arranjos e composições coletivamente, o resultado são discos - o grupo pode voltar aos estúdios este ano - e apresentações que fogem às obviedades. "O lance de a gente tocar mais de um instrumento sempre foi algo muito natural. A gente nunca teve a intenção de ser multi-instrumentista virtuoso, com muita técnica. Mas, no fim das contas, acaba sendo muito produtivo para a gente. O rock sofreu muito por ficar preso a um formato, a uma estética. Fazer algo diferente é sempre bom", diz Takara. Lucas Nobile
ServiçoFestival Alto Verão. Auditório Ibirapuera (800 lug.). Avenida Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3, Pq. do Ibirapuera, tel. 3629-1075. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30/ R$ 80 (pacote)
Comentários
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26/03/2010 às 23:33 | Curitiba - Parana | 19 anos
Interessante.
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