Ou, quem sabe, seja apenas som

Fonte: Devana Babu | Autor: Devana Babu | Data: 09/12/2011 | 0 comentários
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de Ricardo Caldeira: www.flickr.com/samba_raul


Pudera eu, e abdicaria de minha forma e de minha condição humana. De tudo.

A primeira coisa de que me livraria seria do Desejo. Coisa boa seria não querer... pois, não querendo, me livraria da insatisfação e da angústia, da decepção e da ansiosidade.

Me livraria também da Culpa, sentimento cristão, como diria meu pai, que não seria meu pai quando eu transcendesse.

Sem Culpa e sem Desejo, não precisaria de gozo, pois não o quereria. Pra que gozar se já tenho a plenitude?

Me livraria também do Medo. O Medo também é uma forma de querer: querer não sentir dor.

E me livraria da Dor, e pra isso, por último, e talvez como ritual de despedida, me livraria da porcaria do meu Corpo. Pra quê me serviria? E pra quê me serve agora? Não passa de uma prisão pra minha mente dionisíaca.

Bye bye, humanidade.

Mas não imergiria na inexistência, como o amigo Adam "Marcelo Nova" almeja. Não.

Não ainda. Não estou tão angustiado assim.

Pudera, e me tornaria um som. Sim! Pra mim, seria exactamente a forma perfeita, maravilhosa, gozável!

Um som! A coisa mais maravilhosa que admiro nesse mundo! Poderia me metamorfosear em Poesia, em Música, em Baixo, Guitarra ou Batera, em Gemidos de Prazer, em Bate-papo Amigável, em Passos no Quintal, em Aplausos, em Afagar de Cabelos, em Uivos de Ventania, em Chuva no Teto de Zinco, em Suspiro, em Grito, e até no Som da Morte, bonito como é.

Sim! Garanto que, se fosse um som, seria a mais bela melodia já escutada. Sabe, eu tenho todas essas melodias dentro de mim. Eu as ouço e tento, muitas vezes em vão, trazê-las para o mundo material, para compartilhar com outros seres humanos, por que é por demais penoso guardar tanta beleza e alegria só para mim. É algo tão infinito e profundo que preciso dividir com os demais, porque não cabe em mim.

O que me impede de trazer esses sons a esse mundo é o meu Corpo, meu Medo, meu Desejo, minha Dor.

Fosse eu um som, e vagaria por aí sem fronteiras, e meu tamanho seria infinito ou ínfimo, conforme eu quisesse.

O espaço também não seria uma barreira. Eu seria omnipresente.

E, se meus amigos fossem sons também, eu poderia me encontrar com eles na hora que quisesse, e faríamos belíssimas sinfonias juntos, ou simplesmente barulhos de Burburinho em Bar no Fim de Tarde.

E, se meus amores fossem sons, voaríamos em orgamos sonoros infinitos em diferentes andamentos, dinâmicas e rítmos, e faríamos orgias fonográficas irregistráveis. Gritos e Gemidos se fundiriam a Beatles e Arto Lindsay, Estalos de Beijos, Palavras Cálidas e Arrebatadoras, jorro de Sangue e Sêmen, sem sangue e sem sêmen. Coro. Choro. Dissonância. Acordes. Contratempos. Ritmo sincopado. UltraSom! Escalas Diatônicas ascendentes e descendentes e ascendentes e descendentes até os acordes múltiplos!

Fôssemos sons e não teríamos cor. Quem sabe nem nome! Nem história! Nem honra, nem mérito, nem pátria, e nem morreríamos!

Repercutiríamos eternamente pelo éter até que as moléculas se acabassem e, quando acabassem, ressurgiriíamos, ou ressonaríamos, ressucitando mais que Jesus, Goku e osama bin laden juntos.

Fôssemos som e eu seria uma canção do Smiths, depois algumas do álbum branco dos Beatles, bateria eletrônica do Arto Lindsay, Naiipe de metais dos Móveis Coloniais de Acaju, sons agonizantes e profundos do Bauhaus,O rouco da voz de André Gonzalez,o rouco da voz de Janis Joplin, a cavernosidade da voz de Jimbo, um solo de Jimi, um vocalize mântrico de Renato, uma poesia de Baudelaire.

Fôssemos som, e seria impossível não escutar nossa felicidade.


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