O som das garagens

Fonte: Revista Época | Autor: Lauro Lisboa Garcia com Maria Clarice Dias | Data: 31/07/2003
Pelo menos uma vez por semana, Alberto, de 19 anos, e Pedro Luiz, de 23, encontram-se na casa do amigo Rodrigo, de 20, na Zona Leste de São Paulo, e se transformam na banda Skywalkers. A 240 quilômetros dali, em Borda da Mata, no interior de Minas Gerais, Hugo, de 19 anos, Thor, de 21, e Mário Henrique, de 16, viajam com a mesma assiduidade a bordo do HTM Project. Cada um em seu estilo, têm o mesmo objetivo: tocar rock. Para milhões de garotos do país, brandir guitarras, baixos e baterias vem se tornando atividade tão comum como jogar futebol. A garagem do tio, o quarto do amigo, a sala de televisão dos pais, o estúdio emprestado de um colega  qualquer canto pode virar palco. Ali eles fazem barulho, arranham sucessos dos ídolos, aprendem acordes, rabiscam letras, ensaiam repertório para os shows. Para alguns basta o prazer da música, a diversão. Outros sonham com um futuro de fama e fortuna.

Os Skywalkers começaram a investir nesse ideal há dois anos, quando se reuniram pela primeira vez na Vila Rica, na Zona Leste de São Paulo. Escolher o nome da banda (inspirado em ficção científica e grupos dos anos 60) foi a menor das preocupações. Filhos da classe operária paulistana, tiveram de fazer economia para comprar os instrumentos: uma bateria de segunda mão, um contrabaixo montado com partes de outros e uma guitarra comum. Tomaram aulas com uma professora particular e protagonizaram episódios pitorescos:  Fui expulso da escola por ter o cabelo pintado de verde , conta o baixista Alberto, que hoje trabalha no Mambo Bazar, uma feira de moda alternativa. Rodrigo ganha a vida como ajudante-geral numa escola. Atualmente desempregado, Pedro Luiz garante alguns trocados como professor de guitarra. Interrompeu o curso de psicologia por falta de dinheiro.  Queria entrar na USP , diz.

Eles aproveitam quando a mãe e a irmã de Rodrigo saem para o trabalho, à tarde, para ensaiar no quarto do baterista. O som vaza, mas os vizinhos nunca reclamaram.  O ruído dos carros na rua é tão alto que acho que eles devem gostar da música , justifica Rodrigo. O trio acredita que  alguma coisa está para acontecer no rock na virada do milênio. Por enquanto, conseguiu produzir uma fita demo (de demonstração) com a música  Feeling so Blue , que foi parar nas mãos do produtor Luiz Calanca, da gravadora independente Baratos Afins. É uma das faixas da coletânea Brazilian Pebbles, atualmente produzida por Calanca com 14 grupos de várias cidades.  As bandas de garagem são formadas por músicos que tocam com garra e vontade , elogia Calanca.  Isso é o que falta na maioria dos grupos consagrados. Os ensaios são sempre na casa do baterista porque os outros instrumentos são mais fáceis de transportar.

A história dos Skywalkers tem variantes parecidas. Os garotos mineiros do HTM Project não se preocupam com transporte, por exemplo. Fãs do rock progressivo, adotaram o estilo de seus ídolos e resolvem muita coisa por computador  até o som da bateria é obtido com recursos eletrônicos. Mas, como os Skywalkers, eles não estão para brincadeira: querem se realizar como músicos. Não é o caso do grupo paulistano Sufrágio, cujos integrantes têm outras atividades profissionais e tocam só por prazer. Bancaram a produção de um CD demo, mas não querem compromisso com o mercado. A exemplo de outras bandas, levam a carreira paralela na base da camaradagem.  Todo roqueiro tem sempre um amigo que contribui com alguma coisa , diz o guitarrista Reinaldo Andreatta, de 30 anos. Designer gráfico, Andreatta fez várias capas de CDs alternativos, entre elas a do Sufrágio.

 A primeira coisa que olho é a capa do CD. Se for ruim já deixo de lado , avisa Paulo Nogueira, um dos produtores do programa A Vez do Brasil, da rádio 89FM, de São Paulo. Há mais de nove anos Nogueira põe no ar, todo domingo, as gravações que recebe de produções independentes de rock. Nesse período, firmaram-se festivais do gênero, como o Abril Pro Rock, no Recife, e o Skol Rock, no Rio de Janeiro. Em Goiânia, o Go Rock estreou com sucesso este mês, e o Goiânia Noise revelou o grupo local Casa Bizantina, que batalha por um lugar na ribalta desde 1992.  Com a música vamos comprar nossos fuscas , brinca o guitarrista Fabiano Olinto, de 28 anos.

Perto dali, em Brasília, as três versões do festival Porão do Rock superaram as expectativas. Na última edição, nos dias 8 e 9 de julho, as 40 bandas de Brasília e outras cidades tocaram no estádio Mané Garrincha para 130 mil pessoas, muito mais que as 80 mil esperadas pelos organizadores.  Em Brasília há artista bom, público, estúdios de gravação, empresas para patrocinar eventos e apoio do governo. Só faltava juntar tudo isso para fazer dar certo , diz Ulysses Xavier, um dos organizadores do festival. Nos próximos dois meses, o nome Porão do Rock será a assinatura de uma organização não-governamental voltada para financiar bandas de rock, gravação de CDs, shows e formação de rádios comunitárias dedicadas apenas às músicas de bandas independentes.

O Bois de Gerião está entre os poucos grupos que participaram das duas edições do festival. Apesar dos nomes de famílias tradicionais e de serem filhos da classe média alta da cidade, os músicos e amigos desde a adolescência concordam em largar um pouco do luxo para começar a conquista do espaço musical.  Se surgir alguma boa oportunidade, tranco a faculdade e vou viver do que mais me diverte , diz o baterista Gabriel Coaracy, de 20 anos. De perfil semelhante, os integrantes da Móveis Coloniais de Acaju decidiram montar a banda de nome esquisito há dois anos para se divertir e animar quem se dispusesse a ouvi-los. Com o sucesso obtido no Porão em julho, começaram a mudar de idéia. Já negociam shows fora de Brasília ainda sem cachê, mas com despesas de passagem, hospedagem e alimentação bancadas pelos produtores.

Raramente se viu tanta euforia roqueira no Brasil. De olho no público consumidor, a Coca-Cola, a loja virtual Submarino (www.submarino.com.br) e o festival Rock in Rio lançaram concursos recentemente. O Sprite Sounds, da Coca-Cola, recebeu inscrições de 867 bandas de várias cidades e selecionou 92. As eliminatórias regionais começaram na quinta-feira 27, no Rio. Uma das classificadas é a banda feminina Sprawl, formada há pouco mais de um mês por estudantes da classe média carioca.  Foi uma grande surpresa , entusiasma-se a guitarrista Paula Smith. O Rock in Rio recebe até 31 de agosto inscrições para a Escalada do Rock, evento que ocorre dentro do festival, programado para janeiro de 2001. O regulamento está no site www.rockinrio.americaonline.com.br. No Concurso MP3, da Submarino, estão inscritos 678 grupos e artistas, 40% dos quais roqueiros.  Fiquei surpreso com a qualidade das bandas e com a disparidade que há entre esses artistas e as bobagens que se ouvem na TV e nas rádios , diz Daniel Izzo, da Submarino.  Fica clara a carência de espaços para a boa música. Isso os roqueiros sentem na prática.

Outro entrave denunciado é a obrigatoriedade do registro na Ordem dos Músicos do Brasil.  Eles não fazem nada, mas se você não tiver a carteirinha, pela qual tem de pagar, não consegue tocar em teatros e casas noturnas , diz o guitarrista Sandro Garcia, de 30 anos, do grupo paulista Momento 68. Nem os poucos e mal equipados bares de rock de São Paulo os desencorajam. Com um estúdio bem estruturado, Sandro teve condições de produzir um CD demo do grupo e começa a divulgá-lo. Os gaúchos do Bidê ou Balde também não se conformam em permanecer no circuito underground.  Para nos tornarmos profissionais, temos de ir na contramão do esquema de garagem , afirma o vocalista Carlinhos Carneiro, de 21 anos. Com estilo e formação definidos, há um ano e meio o grupo investiu R$ 800 na produção de um CD single, com  Melissa . Levaram o disco para rádios como a Ipanema, voltada para o rock, e a música virou hit. Já apelidada de  Ana Júlia gaúcha, vai ser o carro-chefe do primeiro CD do grupo, que sai em setembro pelo Selo Antídoto, distribuído pela Abril Music.

Hoje não há mais o espírito lúdico do artista que espera ser descoberto por algum caçador de talentos na noite. Mesmo fazendo o som sujo e rústico que caracteriza o rock de garagem, os grupos se sofisticaram, divulgam a música pela internet, compõem e tocam com o auxílio de computadores. Cada um se vira como pode, e valem todos os recursos. Os mineiros do Tianastácia passaram por todos os estágios, desde 1995. Levaram fitas demo para rádios, tocaram em festivais de colégio, produziram dois discos independentes. Até que finalmente foram contratados pela multinacional EMI este ano. Em agosto será lançado o primeiro CD, com um sucesso garantido,  Cabrobó . Fenômeno que arrasta multidões para os shows em Minas Gerais, Tianastácia já vem sendo apontada como a grande banda mineira do ano 2000, como o foram os conterrâneos Sepultura, nos anos 80, e Skank, nos 90. Para quem está começando, o guitarrista Leozinho, de 26 anos, recomenda persistência e autenticidade, fundamentais para conquistar o público.  Enquanto houver bandas tocando em garagem, o rock n roll nunca vai morrer , diz.  Elas são o futuro.

Brasília volta a ser palco de um dos maiores movimentos de rock do país. Entre os novos expoentes está a banda Móveis Coloniais de Acaju

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