Final cheio de surpresas
Fonte: Correio Braziliense | Autor: Daniela Paiva | Data: 06/06/2006
O Cordel do Fogo Encantado foi a carta escondida na manga do Porão | Bruno Peres/CB
Há algumas edições, o Porão do Rock reserva as melhores cartas para o final, quando ultrapassa a barreira do rock em suas acepções mais puritanas e lança ases de ouro favorecidos pela programação solta pelo ecletismo. Foi assim no ano passado, quando Los Hermanos e Móveis Coloniais de Acaju compartilharam as atenções na noite de encerramento do festival. E exatamente dessa maneira ocorreu a nona edição do Porão do Rock, encerrada no domingo, no estacionamento do Mané Garrincha. Numa noite cujos principais atrativos eram Titãs e Skank, o Porão espalhou as cartas que guardava na manga. E arrebatou o público de 18 mil pessoas com shows performáticos e criativos dos pernambucanos Cordel do Fogo Encantado e dos uruguaios do Supersónicos. Boa jogada.
Em três dias de festival, o Porão do Rock perdeu algumas mãos e ganhou outras nas apostas desse ano. Nessa edição, por exemplo, deixou escapar o público pelo preço dos ingressos (entre R$ 10 e R$ 80), uma das principais reclamações das 45 mil pessoas que passaram por lá. No ano passado, foram 70 mil. O festival, porém, acertou na estrutura de alumínio que favoreceu a leveza e a bela decoração. No lado negativo da balança, mais uma vez pesaram os atrasos, certa falta de capricho com questões básicas de estrutura (banheiros, por exemplo) e problemas de som, como o microfone de Sérgio Britto, na apresentação dos Titãs, que atrapalharam, entre outros grupos, os brasilienses do Prot(o) e o Skank.
A programação também desenhou erros e acertos. Na sexta-feira, metaleiros fiéis reverenciaram Krisiun, com Andreas Kisser, do Sepultura, como convidado; Paul Di’Anno, numa apresentação nada mais do que nostálgica para dinossauros, que se divertiram com o rock fanfarrão do Matanza; e a velha guarda punk relembrou os bons tempos com o Cólera. No sábado, um mar de apresentações competentes e alguns protestos (os Detonautas reclamaram do preconceito musical e Roger, do Ultraje, detonou o Hotel Meliá). Bois de Gerião, Forgotten Boys e Walverdes desempenharam um rock bem feito no palco e bom de assistir na platéia. Mas a maior onda de calor foi provocada pelo Ultraje a Rigor, que invadiu o Porão com sucessos de… quantos anos atrás mesmo? Bem, é melhor nem contar.
Então veio o domingo, dia do encerramento, com a responsabilidade de fechar o Porão com chave de ouro – o que não é nada fácil: no ano passado, 25 mil pessoas festejaram na última noite, comandada por Pato Fu e Los Hermanos. Titãs e Skank assumiram a tarefa que não seria tão complicada quando se pensa no desfile de hits de cada uma. As previsões óbvias se confirmaram. Os Titãs embasaram o repertório no CD e DVD MTV ao vivo, lançado no ano passado, e esbanjaram a competência usual em clássicos como Aa-uu, A melhor banda de todos os tempos da última semana, Domingo, Aluga-se, Flores, Diversão, além de Vossa excelência, ao coro de “fdp, bandido, corrupto e ladrão”.
Chance perdida Enquanto a banda manteve a chama acesa, o Skank deixou escapar a chance de partir para sua faceta mais rock e fez uma seleção morna, de músicas do último disco, Cosmotron, de 2003, e alguns sucessos como É uma partida de futebol, Jack Tequila e a cover de É proibido fumar, de Roberto e Erasmo Carlos. O encerramento da nona edição do Porão do Rock, com as homenagens dos artistas e da organização a Rodrigo Netto, guitarrista do Detonautas, assassinado no Rio de Janeiro poucas horas depois de a banda retornar da apresentação em Brasília, revelou outras surpresas.
A primeira foi a pernambucana Volver, que conquistou o público com uma performance enérgica. Músicas como Máquina do tempo, dos versos “que legal seria ter/ uma máquina do tempo/ com ela eu voltaria a ser/ o seu melhor momento”, acompanhados por guitarras que atualizam o clima jovem-guarda, envolveram o público, estimulado pelo carisma do vocalista Bruno Souto. Enquanto a programação trouxe para o palco três nomes brasilienses que não escaparam do feijão com arroz básico do pop rock nacional sem personalidade – Superaudio, Los Tranquilos e Capitão do Cerrado –, o Phonopop revelou-se como destaque local. A banda, que fez no ano passado a estréia com Já não há tempo, apontou significativa evolução em relação ao disco. Tocou alto, com pegada e acabamento. Show redondo, para amantes do rock britânico, com direito a cover dos ingleses do Supergrass (Richard III). A programação ainda teve o clima entre amigos de Haroldinho Mattos e a simpatia de Érika Martins & Telecats na abertura.
Até que chegou o momento das duas apresentações finais. Boa parte do público simplesmente preferiu descansar o resto da noite e não se aventurar madrugada adentro. Mas quem agüentou o pique finalmente encontrou o passo inusitado. O quarteto uruguaio Supersónicos exalou criatividade, performance e simpatia. Valeu até acrobacia – um músico carregando o outro nos ombros enquanto ambos metralhavam as guitarras – para emoldurar o som envenenado que interpreta, pelos olhos da surf music, da new wave a Kraftwerk. O show foi simplesmente irrepreensível, do diálogo com a audiência à potência do som, que arrebatou o público até nas músicas com jeito de rock latino. Terminaram com uma versão deliciosa de Killing an arab.
Os uruguaios prepararam bem a platéia, que ansiava pela escalação mais enigmática do Porão do Rock, o final com os pernambucanos do Cordel do Fogo Encantado. A banda, formada pelo também performático e emotivo vocalista Lira Paes, acompanhado de Clayton Barros, Emerson Calado, Rafa Almeida e Nego Henrique, com sua percussão forte e poesia, mostrou postura muito mais rock’n’roll do que bandas tradicionais do gênero. Ousadia na sonoridade, experimentação, coerência cênica, concomitantes com a musicalidade e o peso. Teatralidade e música caíram como uma luva para demarcar que não há limites na programação do festival e que o rock é mais do que sonoridade. É atitude. O público dançou, cantou e emendou nas poesias. Certamente, o show mais interessante do festival. Só faltou chover ases de ouro nas horas finais do Porão do Rock 2006. Bem que a jogada poderia virar regra…
ESPECIAL NA REDE GLOBO
Domingo, após o Sob nova direção, por volta de 0h. Com uma hora de duração e os melhores momentos do Porão do Rock 2006. Transmissão para o Centro-Oeste.