O nome é gigantesco. Móveis Coloniais de Acaju. Só Móveis, para os íntimos. Ou MCA, na abreviatura. Defini-la não é exatamente simples. Eles mesmos denominaram a sonoridade da banda como “feijoada búlgara”, imagine! Na panela, azeitam os elementos mais variados possíveis: rock, reggae, ska, samba, soul e por aí vai. A musicalidade eclética reflete-se diretamente no público. Não importa a preferência individual – na platéia do Móveis, há espaço para todas as tribos, como se viu na apresentação de sábado, no Arena Futebol Society.
Há muito não ocorria fenômeno tão bonito em Brasília. O entusiasmo do público com a extensa banda – formada por nada menos do que 10 integrantes – impressiona. Não há dança específica. Vale pular, bater cabeça como os roqueiros, sambar como se o fã estivesse em pleno carnaval ou rodar como se, de repente, uma entidade animadíssima tomasse conta do corpo. Enquanto a coreografia se desenvolve frenética, os versos, nada simples, praticamente saltam da língua. Menina-moça e Copacabana soam como hits.
“Sou fã mesmo. Sempre assisto às apresentações do Móveis”, afirma Tainá Martins, de 17 anos. “É um som que dá para dançar. Tem um suingue legal”, elogia a garota, que define o gosto musical como pop de pista. Tainá e o namorado Felipe Rossi, também de 17 anos, são estudantes do segundo grau. Os dois integram a porção adolescente predominante do público que esteve no Arena sábado, no projeto Móveis Convida, iniciativa da própria banda, cujo objetivo é promover intercâmbio com grupos de fora.
A terceira edição do projeto, que trouxe à cidade Coquetel Acapulco (RJ), Rádio de Outono (PE) e Ímpar (MG), teve, como convidado, o grupo paulista Ludov. Liderado por Vanessa Krongold, o Ludov, que tem na formação dois brasilienses, Habacuque Lima e Mauro Motoki, fez um show baseado no CD de estréia, O exercício das pequenas coisas, lançado pela gravadora Deckdisc. Apesar de visitante ilustre, teve de enfrentar o público que esperava o MCA. “O nome da banda? Ah, Ludov”, responderam, durante o show, a um fã desavisado. Saíram-se bem do aperto. Conquistaram o público com competência, simpatia e um som agradável e redondo. Lucy and The Popsonics e Colina abriram a noite para um público que se espalhava pelo Arena enquanto aguardava suas estrelas.
Há certos elementos que contribuem para o fenômeno – afinal, não é todo dia que uma banda brasiliense independente arrebata um público fiel maior do que, digamos, a capacidade do Gate’s Pub (cerca de 250 pessoas). A primeira edição do Móveis Convida ocorreu em dezembro do ano passado e reuniu 700 fãs. A segunda, em março, alcançou um público de 1.200 pessoas. Um desses fatores certamente é o trabalho duro da banda.
Além das funções obrigatórias de músicos, os 10 integrantes – agora completos, já que Léo Bursztyn, que faz doutorado de economia na Universidade de Harvard (Estados Unidos), está de férias pelo Brasil – participam de todas as etapas do processo de produção da banda, do desenho da capa do disco à divulgação. Tainá e Felipe, por exemplo, costumam ficar de olho nos panfletos distribuídos na porta da escola para acompanhar a agenda de shows do grupo.
“É difícil conhecer as bandas de Brasília. Não tem como procurar”, reclama João Fernando, 15. Ele circulava pelo Arena com os amigos Tomás de Castro, 15, Vinícius Galvão, 15 e Leonardo Luciano, 16. O Móveis comprova que é possível driblar as dificuldades naturais de uma banda sem respaldo de gravadora, rádio e mídia. “Às vezes vou no site deles para saber se tem show”, conta Vinícius. Os motivos para o quarteto de amigos seguirem os passos da banda pelos palcos da cidade variam. “Tem muito instrumento”, analisa João, enquanto Tomás, com visual roqueiro, rapidamente completa: “E uma letra criativa”.
Calorosos
O que mais tem nessa mobília? “Presença de palco”, explica Júlia Verdum, 18, que faz cursinho pré-vestibular. Além dos shows da banda, que tem espaço cativo na agenda de fim de semana, ela costuma freqüentar eventos de reggae. “O show do Móveis é caloroso”, define. O ardor atingiu o ápice na noite fria – 15 graus, apontaram relógios eletrônicos – durante a música Copacabana, a última do longo set list do show, antes do bis. Então, alguns integrantes descem do palco, se enfiam no meio da massa e formam uma grande roda de braços entrelaçados. Em uma dança em comum, público e banda trocam reverências. “As pessoas se identificam com eles”, avalia Júlia.
Essa espontaneidade está atrelada a um profissionalismo exemplar. A grande roda já é praticamente de praxe, se encaixa com naturalidade em qualquer apresentação da banda. O roteiro do show baseia-se no álbum de estréia, Idem, de 2005, produzido por Rafael Ramos. Em um ano desde o lançamento, o disco, independente, alcançou a vendagem de 4 mil cópias e vai para a segunda prensagem. Ainda sobra lugar para duas inéditas, Lista de casamento e Sorria, sorria, versão da canção de Evaldo Braga que estará em uma coletânea chamada Eu sou cachorro mesmo, e inserções bem arranjadas das músicas Eu me amo, do Ultraje a Rigor, e Glory box, do Portishead.
“O estilo deles é diferente, atrai todas as tribos, todo tipo de pessoa”, analisa Cláudia Vargas, 18, ao lado de André Pereira, 20. Essa característica é nítida no visual da platéia. Das saias longas e sandálias tradicionais do público regueiro aos piercings do rock. Não importa a tribo. Todos os estilos se encontram no show do MCA. André Gonzáles, vocalista da banda, 23, destaca alguns elementos que podem ter contribuído para a diversidade de público. “Sempre tocamos em tudo quanto é canto, festival de heavy metal, formatura, embaixada. Não temos pudores para tocar”, avalia.
Uma curiosidade é que, dependendo do palco, a idade da platéia muda. André cita, como exemplo, o show recente pelo projeto Fnac no Parque em que os adolescentes se concentraram na fila do gargarejo e os “tios” de vinte e poucos (ou tantos) anos distribuíram-se pelas laterais. “Como o som do Móveis não tem uma forma onde as pessoas possam se identificar diretamente, não existe um tipo de público”, avalia. “A gente não exclui e nem inclui ninguém.” A grande roda simboliza exatamente isso. Quem entra no “abraço coletivo” se esbalda. Quem fica de fora, também.
Que mobília é essa?

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