Festival No Ar - Segundo Dia

Fonte: Dynamite | Autor: Ericka Rolim | Data: 04/09/2006
foto do dia

Camarim em Recife | Foto: Maíra Erlich

No último dia do Festival No Ar – Coquetel Molotov, muita ansiedade fez parte do público que se reuniu para assistir a grande atração da noite, Tortoise. Apesar de ter sido um dia menos brilhante na Sala Cine, ainda assim contou com boas atracões. O rock cênico das Barbis, Valv e sua maturidade musical, a big band Móveis Coloniais de Acaju, Rubin Steiner e Tortoise, fizeram parte do último dia do Festival. Ana Garcia, Viviane Menezes, Jamerson Lima e Tathiana Nunnes, merecem parabéns pelo brilhante Festival que produziram, que merece o título de um dos melhores festivais do Brasil.

Sala Cine
Hrönir (PE) , Debate (SP) e Chambaril (PE)


Free Jazz e eletro-acústica marcaram o início do segundo dia do Festival. Hrönir é formado por Thelmo Cristovam, Túlio Falcão e Lucas Alencar, os dois últimos também integrantes da Ahlev de Bossa. Hrönir é um projeto de experimentações musicais. A apresentação contou com passagens suaves e agradáveis, trabalhadas dentro do Free jazz, e também por momentos explosivos e surpreendendo com os ruídos dissonantes. Apesar de alguns curiosos na sala, a apresentação não teve tanta atenção do público.


Após o Hrönir, a Sala Cine ficou cheia. Muita gente se reuniu para assistir o show do Debate, banda de São Paulo. Pouco conhecida por aqui, a banda conseguiu uma grande lotação. Tarefa difícil descrever um dos shows mais ruidosos da Sala Cine, intercalando momentos de sons mais melódicos com uma bateria pesada, a sonoridade consegue caminhar pelo hardcore puro até um som mais psicodélico. O público gostou e para surpresa de alguns, Debate foi a banda que mais agradou no segundo dia da Sala Cine.


Após longos momentos de espera, pôde-se ouvir na sala uma mistura sonora. Com formação desde 2001, encabeçada por Cláudio N, Chambaril é uma banda que mistura eletrônico e analógico, com samplers bem variados e recortes estranhos. A banda se diverte em palco com as experimentações que em momentos beiram a esquizofrenia. Em outros momentos torna-se música para dançar na pista. O que pode se ver são pessoas dançando ao som nada redondo do Chambaril.


Festival No Ar – Coquetel Molotov
Teatro da UFPE – 02 de Setembro
Backing Ballcats Barbis Vocals, Valv, Móveis Coloniais de Acaju, Rubin Steiner e Tortoise.


Três mulheres em palco e alguns músicos formam a Backing Ballcats Barbis Vocals. Drica Barbi, Lilica Barbi e Leta Barbi são teatrais, desbocadas e livres no palco. Não há dúvida do domínio no palco que elas exercem e a interação com o público. Com músicas que fazem piadas com vários tipos de estereótipos e circulando por vários estilos musicais (samba, reggae, blues, brega e rock), a banda agrada os presentes próximo ao palco. A sensação que fica é de um show para assistir, não para ouvir. Musicalmente não apresenta nada empolgante e a atitude punk-brega em momentos soa como piada repetitiva, ou remete à extinta Textículos de Mary. As Barbis, que não estão cercadas de Kens, se divertem e o público também. Mas ao fim do show já se esqueceu a graça.


Após as piadas das Barbis, hora de música séria no palco. Valv vem para mostrar o som denso e encorpado que tantos aguardam ansiosamente. A banda conta com guitarras de presenças densas, lembrando o Sonic Youth, um vocal extremamente bem colocado, entrando na lista de uma das melhores vozes do Rock nacional. Ainda uma bateria instigante e um baixo, que poderia ser esquecido com presenças tão marcantes das guitarras, com linhas grandiosas e presentes. Show corretíssimo, pena que o público não prestigiou tão bem. Valv é uma dessas bandas que nunca se esquece do show.


Por sorte o palco do Teatro da UFPE é grande. Só dessa forma poderia acolher o Móveis Coloniais de Acaju. A banda conta com 10 integrantes, como não bastasse o grande número de músicos no palco, eles não param um segundo. Quando vi que a transmissão dos instrumentos não estavam sendo feitas por cabos, mas por aparelho sem fio, logo imaginei que o show iria esquentar. Com um naipe de metais bem circense, guitarra com referências de ska e um baixo bem presente, o complemento dessa big band atende por André. Sua voz, única, encorpada e pegada soulman, reflete bem o espírito da banda. Eles se divertem em palco como nunca se viu antes, correm sem parar e não perdem o ritmo de show em nenhum momento. Músicas como "Seria o Rolex?", "Menina Moça", "Perca Peso" e "Aluga-se Vende-se" foram cantadas por boa parte do público. Ainda uma versão de Take me out, do Franz Ferdinand, que foi tocada com uma pegada de Ska. Como um gesto simpático para agradar o público, os metais tocaram uma parte do Hino de Pernambuco. Nunca imaginei assistir um show que tivesse uma versão de "Se essa rua fosse minha" e que todas as pessoas cantassem. Não dá para imaginar um show do Móveis Coloniais de Acaju, só assistir e se divertir.


Com a euforia que passou no teatro junto com o show do Móveis Coloniais de Acaju, ficou difícil para Rubin Steiner segurar o ritmo. O Francês não fez feio e conseguiu manter a qualidade da apresentação. Com sua mistura de elementos eletrônicos e instrumentos acústicos, a sonoridade mais próxima é de jazz eletrônico. Interagiu com a platéia e fez danças no palco, o público reconheceu o esforço e o talento do Rubin Steiner. Dentro das influências dá para notar Beastie Boys e Kraftwerk, mas de forma mais presente, Mingus e Coltrane. Apresentação muito interessante que ficou um pouco apagada pela euforia do show anterior.

O público de Recife foi acometido por um fenômeno pouco comum. Todas as pessoas estavam sentadas em suas poltronas aguardando ansiosamente o grande nome da noite. Nunca se viu em todo o Festival uma platéia tão introvertida e ansiosa. Antes de iniciar o show, seguranças ficaram em pé na frente ao palco e foram vaiados. Todo mundo queria a melhor visão da atracão que finalizaria o Festival: Tortoise. A banda de Chicago fez um show interessante, empolgante e contando com um telão de projeção que tornou perfeito o clima da noite. Com duas baterias no palco, que hipnotizaram o público, um xilofone, guitarra e um baixo impressionante essa foi a formação do show do Tortoise. A apresentação contou com algumas músicas do álbum TNT, como "I Set My Face To The Hillside", "The Suspension Bridge At Iguazu Falls", "Tnt" e "Swing From The Gutters", essa última contando com duas guitarras e todo o peso que a banda oferece. Com toda certeza foi a melhor atração para o encerramento do Festival.

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