Festival de Peso

Fonte: Tramavirtual | Autor: Dagoberto Donato | Data: 05/09/2006

O festival No Ar Coquetel Molotov chegou no último fim de semana à sua terceira edição, mais consistente do que nunca. Se no seu primeiro ano, amparou-se em uma atração de peso, a banda escocesa Teenage Fanclub, para cravar seu nome no calendário cultural de Recife, e no segundo contou com boas, mas desconhecidas, atrações internacionais, em 2006 ele encontrou o que talvez seja sua fórmula mais vencedora.

Méritos artísticos à parte, a produção acertou ao combinar uma atração mundialmente respeitada (Tortoise), um hype nascente (CocoRosie), bons nomes nacionais geralmente desprezados pelo circuito de festivais independentes do país e um par eficiente de recheios internacionais. Resultado: o público não só compareceu como também aprovou e o festival mostrou de vez que a obviedade não precisa ser ingrediente fundamental para o sucesso de um evento como este.

O pontapé inicial foi dado pelo gaúcho Tony da Gatorra que apresentou um show de greatest hits em versão 3G – três gatorras -, acompanhado dos escudeiros Bruno Ramos (Lulina) e Guilherme Barrella (Blue Afternoon). Como era de se esperar, a reação do público ficou entre o espanto e o desprezo. Alguns iluminados, entretanto, não deixaram de se entusiasmar com a mensagem e o som único do mestre. A sensacional jam final, com Kassin comandando um Game Boy, botou os pingos no is, com uma maciça muralha de ruídos eletrônicos de fazer o Black Dice pedir arrego.

Na seqüência, sem abandonar o palco, Kassin, com o seu projeto Artificial, foi responsável por um dos melhores shows da Sala Cine UFPE. Sala aliás, que não viu show ruim. A variada programação foi uma série de acertos, do noise extremo do Rhönir à eletrônica de roqueiro do Diversitrônica, passando pelo groove à Herbaliser do Chambaril.

Mas, de todas as apresentações do palco menor, a que mais impressionou foi a do trio paulistano Debate. Alternando espasmodicamente momentos de tensão e alívio, a banda fez um show brutal, sem dó, sem intervalo entre as músicas, sem tempo para se respirar – se bem que, pensando bem, até mesmo respirar tornava-se algo secundário ante cada ataque promovido pelos caras aos seus instrumentos.

O palco principal, do Teatro da UFPE, também viu bons shows. Influenciada pela música erudita, mas calcada no post-rock, a local Ahlev de Bossa abriu a primeira noite com um minimalismo plácido que, ternamente, desembocou em um caótico mar de dissonância. Beleza pura. Daí para a frente, as bandas fizeram o que se esperava delas: show competentes, mas não muito mais que isso.

A boa guitar band local Badminton teve seu melhor momento ao fechar sua apresentação com uma versão de “Ain’t Talking About Love”, do Van Halen - anunciado como um cover de Belle & Sebastian. O show do francês Spleen é emperra quando parece que vai dar certo. Começa legal, levanta a platéia com o excepcional trabalho do responsável pelos beatboxes, mas deixa tudo desandar num sonzinho com cara de Living Colour. O CocoRosie levou o público ao delírio com seus belos vocais e instrumentação inusitada, mas não deixou de passar uma sensação de vazio para os que apreciam seus discos. Faltou intensidade. Júpiter Maçã fechou a noite com seus hits entoados pelos guerreiros que agüentaram até as três da manhã para acompanhá-lo em hinos como “Lugar do Caralho” e “Miss Lexotan 6 mg Garota”.

A segunda noite no teatro começou com a banda olindense Backing Ballcats Barbis Vocal´s. Lembrou Blitz, para o bem ou para o mal. Os mineiros do Valv e os franceses do Rubin Steinter também passaram pelo palco com bons shows que acabaram ficando ofuscado pelos outros shows da noite. Primeiro, os brasilienses do Móveis Coloniais de Acaju botaram o teatro inteiro para dançar com um show frenético. Por último, veio o melhor show do festival e, se bobear, do ano.

Tortoise chegou como favorito. E deu Tortoise na cabeça. Inspiradíssima, a banda de Chicago fez uma apresentação espetacular. O difícil é traduzir o que foi aquilo. Foi rock, foi intenso, foi dramático, foi preciso, foi bem executado, foi tocante. Foi lindo. Será que dá pra trazer os caras de volta em 2007?

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