Elefante Bu - Toda vez que se fala do inicio da Móveis, uma coisa que ficou marcante para mim foram as piadinhas sobre vocês na coluna “A Verdade” da antiga revista do Porão do Rock. O cara que escrevia adorava sacanear a Móveis!
Fábio - Eu não sei se o cara da "A Verdade" veio aqui hoje, mas eu me sentia muito honrado por ser sacaneado. Éramos uma banda desconhecida e cara ainda gastava o tempo dele com a gente. Eu ficava até emocionado porque devíamos ter alguma coisa para o cara perder o tempo dele. Isso foi em 2000, e na época a gente ficava se perguntando se alguém tinha gostado do nosso som. A verdade é que isso pouco importa.
Borém - Acho que primeiro a gente quem gostar do que faz, e depois as pessoas gostarem do que a gente faz. Mas deu para ver no show de hoje que tem aumentado o número de gente que gosta (risos).
BC - Até hoje tem gente que fala mal, dizendo que o pessoal é muito louco e que não é uma coisa muito padrão. O que é natural. O que importa é que estamos construindo algo interessante, e há algumas pessoas que nos ajudam muito. Mas enfim, não dá para agradar todo mundo e não dá para ganhar todas.
Fábio - Inclusive, gostamos de correr riscos. A gente tinha uma música que era uma mistura de forró com ska. Na primeira vez que fomos tocar fora de Brasília, foi para fazer um show em São Paulo junto com a banda Rudeness de skacore, que é a coisa mais pesada do mundo. O show foi no Hangar 110, que é o lugar mais punk-rock da São Paulo. Quando nós tocamos essa música, os caras olharam para nós como se
estivessem pensando “mas que diabo é isso?”. Acho que temos que arriscar e se
divertir. O princípio é esse.
BC - Acho que você se divertindo e fazendo alguma coisa interessante, vai agradar alguém. Daí é só buscar esse alguém.
Elebu - No site de vocês tem a pergunta: “banda de rock?” Na verdade o som que a Móveis faz não é bem entendido como tal, mas mesmo assim vocês também são representantes da chamada “terceira onda do rock de Brasília”. Que coisa maluca é essa?
Fábio - Acho que a pergunta que deveria ter no nosso site era “o que é rock?”, porque essa história do pop-rock envolve desde Jota Quest até Sepultura. Tudo é rock e depende da referência de cada um.
BC - E o que é ser rock não não apenas em termos de gênero, mas de atitude? Se a gente pegar em termos de atitude, nós somos punk porque fazemos tudo sozinhos. Fazemos o site, tiramos as fotos, fazemos as gravações... então, talvez a gente seja uma banda de punk.
Fábio - A idéia de rock é essa coisa de cozinha: ter bateria, baixo e guitarra, uma temática de distorção e no tipo de composição. É nesse sentido que a gente se encaixa nele, mas não ficamos limitados ao rock como sonoridade. A gente toca o que tiver nos interessando naquele momento, que pode ser desde ska, rock, MPB ou até música do leste europeu. Vamos sempre analisar o que fica bom para nós.
Elebu - A Móveis é uma banda que tem o prazer de ter um release escrito pelo André Abujamra. Queria que vocês falassem um pouco desse reconhecimento que estão conseguindo de outros artistas inclusive.
Borém - Isso foi uma grande honra. A gente até se arrepia.
Fábio - Nós fizemos um show com a Maria Rita no Via Funchal em São Paulo, e ela ouviu duas músicas nossas antes de ir para o camarim se preparar para o show dela. Foi legal vê-la dançar do lado do palco.
Borém - Depois do show, ela foi inclusive falar com a gente para dizer que adorou.
BC - Até mesmo com show de hoje com o Gabriel (Thomaz) foi muito bom. Ele é um cara muito legal e simples, que veio aqui só para tocar com a gente. Isso tudo nos dá a certeza de que estamos no caminho certo em defender uma proposta sem ficar
titubiando. Hoje nós podemos pegar uma música do Little Quail e descontruí-la completamente sem ter receios.
Elebu - O que chama a atenção para a Móveis é a ótima organização da banda. Vocês têm um site da internet bem feito, organizam shows e eventos, formaram uma equipe de produção que conta até com assessor de imprensa. O que levou vocês a pensar nisso tudo?
Borém - É que estamos cada vez mais convencidos que o modelo de negócios é o da banda Calypso. Sinceramente, nós queremos ser o Calypso do rock, porque ela faz tudo, vende milhões de cópias e hoje todo o dinheiro gerado é da própria banda. Isso
aconteceu porque ninguém acreditou neles lá na origem. Eles correram atrás de gravadora e ninguém quis arriscar na proposta deles. De certa forma, o mesmo acontece com a gente. Tem muita gente que gosta, mas eu entendo a posição da gravadora porque é arriscado assumir um produto como o nosso. Acho que isso acontece por causa do nosso tipo som que não segue modelo de ninguém.
BC - Na verdade, tudo se resume a uma palavrinha: proatividade. Nós somos dez na banda. Ao invés de pensar em custos e dificuldades para viajar, nós temos que transformar o fato de ter dez integrantes em vantagem. Por exemplo: o Borém, o André e o Renato são designers, então eles vão cuidar da parte visual da banda. O Fábio é antropólogo e cuida do caixa... bom isso não tem muito haver, mas existem
coisas assim até porque a banda tem dois economistas e eles passam longe do dinheiro (risos). Nós dividimos as tarefas e procuramos fazer bemfeito tudo o que nos propomos a realizar. Se a cena está devagar, então vamos produzir o nosso próprio show.
Elebu - E dessa idéia e postura que surgiu o projeto "Móveis Convida"?
Borém - Exatamente. Surgiu dessa falta de opção. A gente precisava continuar tocando em Brasília e tinha que chamar bandas de fora, porque acho que a cidade carece desse intercâmbio. Além disso, tivemos a experiência do sucesso do nosso show de lançamento, onde nós fizemos tudo e na marra. Isso possibilitou a venda das duas mil cópias do CD na semana do show, que já é um número estonteante
para qualquer banda independente.
Elebu - Apesar de ter dez pessoas na banda, não são todas as vezes que vocês conseguem tocar completos, o Beto mesmo está na Europa nesse momento. Mesmo assim o show sai. Convenhamos que isso é outra peculiaridade da Móveis.
Borém - É porque nós temos uns sem-vergonhas intinerantes (risos).
BC - É que nós somos igual um time de futebol. São dez na linha e tem o Ofuji no gol. então quando um tem uma necessidade de sair, vem outro para suprir. Eu mesmo só entrei na banda quando o Leo foi para Harvard começar o doutorado dele. Eu sou colega dele da economia, a gente já tinha tocado juntos algumas vezes e quando ele foi para lá eu entrei na banda. Mas quando ele está no Brasil, tocamos juntos, porque dá para fazer um monte de arranjos e coisas diferentes pelo fato de eu também tocar bandolim e cavaquinho. Nós temos que nos virar porque o show tem que continuar. São dez pessoas, dez necessidades diferentes e cabe a nós compreendermos isso e fazer o melhor possível.
Fábio - Fora os dez e o Ofuji, é bom dizer que temos ainda o Tom, que é o técnico de som, os três rodies Brunão, o Bola e o Luiz, tem o Marcelo que faz a luz e o Wesley que entrou à pouco com o monitor. E tem a Mel, que faz a parte de mechandising. Como você pode ver, é uma grande família. A base está junta há seis anos e o resto vem sendo agregado desde 2003. E nós estamos sempre juntos a ponto de ficar sacaneando porque sempre que passamos muito tempo viajando e chega em Brasília, quando vamos sair para a algum lugar é sempre com alguém da
banda. O pessoal que está fora sabe que quando eles voltarem, o lugar deles vai está aqui. O Leo, por exemplo, está oficialmente há um ano fora. Mas nesse ano afastado, ele ficou seis meses aqui em Brasília. Ele veio para fazer um show, voltou para Havard para fazer uma prova e depois veio para o Brasil de novo. Dá para fazer isso porque a passagem de lá para cá é muito mais barata. Metade do preço praticamente.
BC - É bom acrescentar que o Leo está sempre compondo e mandando coisas novas para cá.
Elebu - Como é que está a saída do Idem?
Fábio - O Idem acabou duas vezes, o que é incrível. A primeira pensagem foi de três mil cópias que já acabou. Nós fizemos mais mil que também já acabou. Ocorreu que tivemos de comprar de novo alguns discos que já tínhamos vendido para uma loja
daqui de Brasília. Os donos tinham cem cópias do nosso disco e estavam segurando não sei para quê. Até hoje a gente não entendeu.
Elebu - Agora que vocês começam a conquistarem espaço na imprensa, tem reconhecimento, qual o próximo passo?
BC - Estamos com um reconhecimento muito legal de público, crítica e imprensa, mas a gente não se ilude. O caminho é muito lento e precisa ser assim: lento, gradual e seguro. Eu não sei onde isso vai parar, mas o fato é que a cada dia a gente conquista mais um pouco. Estamos viajando bastante e tendo uma boa execussão fora de Brasília. Estivemos no Nordeste há pouco e nos surpreendeu porque nunca imaginávamos que o pessoal lá conhecesse a banda. É certo que o que importa é o presente porque o futuro a Deus pertence. Por outro lado, a gente sabe que está construíndo uma casa que onde alicerces já estão quase prontos.
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