Maré Candanga
Fonte: O Povo | Autor: Felipe Gurgel | Data: 14/02/2007
A coletânea Terceira Onda - O Novo Rock de Brasília faz um recorte ousado da cena rock da capital federal. Para entender essa história de "onda", em Brasília, é só olhar uns 25 anos para trás. A primeira onda apresentou o fenômeno Legião Urbana e uma certa atitude punk para a emergente cena do rock nacional dos anos 80, quando bandas como o Capital Inicial ainda tinham algo de interessante além de uma postura fake. A segunda - encabeçada pelo Raimundos sob absoluto comercial na década de 90 - não segurou a longevidade de nomes como o Maskavo Roots, tão forte fora a força de Rodolfo & cia em despontar sozinhos e, sem querer, ofuscarem o restante da "onda".
A terceira onda, pelas circunstâncias atuais de mercado, segue tendência mais uniforme e discreta. Um paradoxo, ao se considerar que hoje é cada vez mais complicado alçar reconhecimento tentando delimitar artistas em um só movimento. No entanto, parece que o interesse não é meramente mercadológico. Ótimo. Produzido por Fernando Rosa e com direção musical de Philippe Seabra, da Plebe Rude (ícone da "primeira onda"), a compilação acerta em recortar um cenário que sinaliza que o maior mérito artístico do rock nacional hoje está no meio independente. Por outro lado, mostra como a pulverização do mercado não facilita tanto pinçar bons valores. É trabalhoso. Ao todo, 19 bandas estão no disco.
Uma edição especial da Terceira Onda é um projeto direcionado para o programa Senhor F na Escola. Com apoio da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, o projeto leva informação sobre o rock de Brasília para as escolas públicas. Boa idéia que atinge uma fatia de público pouco visada pelas bandas além da classe média moderninha e já convertida na onda do underground. O projeto é um exemplo tremendo. O mérito artístico, porém, é mediano, em alguns casos da compilação.
Falta sustância para nomes como Prot(o), Superquadra e Mentes Póstumas. Seja pelo discurso batido ou pela previsibilidade do som. Beto Só é de uma "melosidade" agoniante. 10Zero4 parece um Rage Against The Machine em português. Tosco.
Sapatos Bicolores e Bois de Gerião são nomes que circulam bem no independente e mostram som maduro, sob certa criatividade. Nada muito além disso. Mas, aqui e ali, a simplicidade do rock de Brasília ainda surpreende. O Virgem Again dispõe de uma das faixas mais legais da compilação. O Amor é Uma Simples Troca não tem grandes arrodeios. Como o nome já diz, soa simpática, bonitinha. Você põe no repeat porque gruda mesmo!
As propostas mais distintas são de fato as melhores apostas dessa Terceira Onda, sem parecer algo "diferentão" de graça. Marcelo Mendes & Os Bacanas trazem uma letra divertida e irônica sobre a Jovem Guarda, onde "comem a Wanderléa com catupiry", em um arranjo instrumental meio marchinha roqueira. Bom demais.
Os workaholic´s dos Móveis Coloniais de Acaju aparecem com a boa Esquilo Não Samba. Não à toa, o Móveis é uma das bandas "top 3" do rock de Brasília hoje. Já Lucy and The Popsonics quebra tudo com seu eletro-rock-porra-louca que, por aqui, saiu um de seus semelhantes (Montage). Coração Empacotado é rasgada. No mínimo, provocante. Por essas, a coletânea fica na média quanto ao repertório. E muito boa pelo conjunto da obra.
SERVIÇO Terceira Onda - O Novo Rock de Brasília - Coletânea com 19 bandas de Brasília (DF). Lançamento: Senhor F Discos. Seleção musical e produção: Fernando Rosa. Direção musical: Philippe Seabra. 19 faixas. Preço médio: R$ 15,00. Info.: www.senhorf.com.br