
em um momento como esse, sempre me faltam palavras e sobram sentimentos. assim, a única coisa que me resta (e me consola) é pensar. e foi o que mais fiz nos últimos dois dias: refletir sobre a importância, a perda, a falta e os presentes.
falar da importância do meu avô é de uma dimensão que não tenho capacidade de abarcar, não sou grande o suficiente. ele falava e de suas palavras aprendi de filosofia a arte, de política a moral, passando por pensadores mil! alguns que tinha conhecimento e outros, a maioria, de quem nunca tinha ouvido falar. mas mesmo quando não falava, era importante. e como! lembro dos meus primeiros semestres, quando comecei a estudar alguma coisa de filosofia e achava que poderia conversar com ele a respeito. doce ilusão! não por não poder conversar, pois podia, mas simplesmente por não querer fazer outra coisa senão escutar. e foi assim que aprendi muito do meu avô, querendo escutar.
sua maior importância, para mim, foi essa: escutar! não só quando ele falava – descobri, tempos mais tarde, que na sua forma de falar residia uma escuta também: meu avô era dialógico. descobri que poderia conversar com ele sem me sentir pequeno, pois ele escutava e refletia. mesmo ao discordar ou ao dizer que deveria ler mais os clássicos (eu que negava, hoje sinto mais do que necessidade, existe a vontade de desvendá-los!). ele era um verdadeiro educador! um mestre! por mais que ele não fosse concordar comigo, sentia nas poucas (como gostaria de ter tido mais e mais outras tantas!!) conversas que tivemos que ele era um tanto hegeliano: conseguia reconhecer sendo sujeito e, principalmente, era reconhecido como tal e não como senhor! um verdadeiro processo ensino-aprendizagem surgia do convívio com ele.
toda a sua importância reflete, claro, na sua perda e na falta que fará.
difícil falar da perda de um parente, ou de alguém querido. sou grato por não poder falar muito disso, não tive tantas perdas e, talvez, nunca tinha entendido o impacto que um momento assim poderia causar até hoje (era muito novo e distante quando perdi minha avó – mulher desse meu avô – e meu avô paterno para mais do que entender, refletir sobre isso).
a perda maior é o convívio. um cotidiano (distante, mas presente) de poder falar, tocar, ver e outras tantas formas sensíveis. um diálogo, uma opinião, a palavra.
e tudo isso remete diretamente a sua falta. sentirei a falta de um beliscão de pé (outro aprendizado que posso dar crédito a ele), um cascudo, da benção ou do chocolate pseudo-escondido e controlado. sentiremos falta, sim! pois todos os seus atos nos constituíram e era tão bom sentir que aprendíamos com ele, que não queremos abrir mão.
e não precisamos! descobri isso hoje, momentos antes de fecharem o caixão.
conto dois aspectos que me levaram a pensar sobre isso (bestas os dois, mas que fizeram tanto sentido para mim que se tornaram a chave para poder falar dele): o primeiro é uma noção de memória (que posso dizer que tenho). não vou me prender muito na descrição desse conceito, mas gostaria apenas de colocar que a memória é feita pela perda, é constituída por aquilo que não podemos pegar e controlar. ela nos afeta, nos perpassa e deixa traços que nos constituem. esse é o seu valor: pelo movimento de perda (deixar escapar), completa e preenche espaços que nos constituem. assim, a memória tem de se tornar viva, fluida e em movimento. e devemos encará-la dessa maneira, sem o medo da perda, do pedaço que está faltando (afinal, ele não existe!).
o segundo aspecto foi o fato ocorrido durante o velório: por questões que não entendi muito bem (se era uma opção ou uma necessidade), ele foi embalsamado. quando o corpo chegou à igreja houve um choque por causa de sua aparência: aqueles que o tinham visto no dia anterior, já morto, não reconheciam seus traços, sua cor. avisaram-me da diferença antes de chegar lá e tive um certo tipo de medo (o qual não sei descrever) de olhar diretamente para o corpo naquelas condições: não era ele!
e hoje descobri! de fato não era ele! quando estavam fechando o caixão virei para um último olhar e, por minha localização – de frente para ele – pude, sem querer, contemplá-lo por um instante que vai ser eterno em minha memória: parecia uma réplica do que ele foi. era uma estátua que seria enterrada e não o meu avô. um duplo que apenas representará a sua ida e a nossa perda.
sua aparência estranha foi o que me tranqüilizou sobre isso: ele continuará aqui, com todos nós, em sua memória. na memória viva que nos constitui, na relação que traçarei com ele, com o todo que ele nos ensinou e nos mostrou. no que cada um vai tirar de toda uma vida de convívio, de recordações, lembranças e aprendizados. e também no que poderemos fazer, nas nossas ações em que veremos o quanto daquilo é ele agindo, nos guiando. hoje já foi assim: a união, o consolo, o abraço e as lágrimas que cada um podia oferecer ao outro como uma forma de ser dele também!
e chego, por fim, aos presentes que meu avô nos deixou. além da maravilhosa família que posso dizer que tenho, das relações que estabeleci e espero estabelecer com todos e todas, meu avô me mostrou, hoje, um caminho para entender a importância do outro, de grupo, de respeito e solidariedade (esse foi o segundo momento na minha vida em que senti e vislumbrei esses conceitos em ação), que não conhecia.
obrigado vô, por tudo que você foi, é e será!
Não preciso nem dizer o qto estou chorando ao ler... Muito bonito o texto. Vovô ficaria feliz, e demonstraria do jeito dele, provavelmente reclamando! A saudade vai ficar, pra sempre... beijos da irmã que muito te ama
Fabinho, é muito difícil realmente expressar em palavras o que sentimos nesse momento, mas vc o fez muito bem. Acho que a morte é um momento de descoberta individual, traz sensações estranhas sobre nós que ficamos e sobre aqueles que se formam. Eu ia dizer que sinto muito, mas acho que não sinto. Fico feliz por vc se sentir assim e fico feliz por que vc teve na sua vida uma pessoa que te proporcionou isso tudo.
Grande beijo.
Meus mais sinceros sentimentos.
Força!
Amigo, nessas horas é que as pesoas mostram a sua força e esperança.E vc está mostrando isso com muita alegria!!
Abraços!!!!
Que lindo, meu querido! Texto lido!
Ficou um vazio sem vc por aqui... Òtimo te rever! Que seja o primeiro de muitos re-encontros!:)
Abraço grande
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