Cobertura: RecBeat 2008 - Segundo dia

Fonte: Recife Rock | Autor: Hugo Montarroyos | Data: 04/02/2008
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Sabe aquela máxima que diz “Fulano só não fez chover ontem”? Pois é, o Móveis Coloniais de Acaju fez. Aliás, chuva foi pouco. Temporal seria mais adequado. Temporal que, no caso deles, serve como sinônimo de enxurrada de tudo: musicalidade, presença de palco, competência, inteligência. Para ser curto e grosso e acabar de vez com todas as tentativas frustradas de metáforas acima: foi dos melhores shows (talvez até o melhor) da história do Rec-Beat.

Mas, como nada é perfeito, comecemos com uma bela de uma mancada. E nossa! Em nome do RecifeRock, gostaria de pedir mil desculpas à Isaar. O trânsito momesco fez com que perdêssemos toda a apresentação dela. Perdão, Isaar. Sei que você merece um tratamento quinhentas mil vezes mais respeitoso por tudo que construiu ao longo de sua carreira. Mas (e artista deve saber disso mais do que ninguém) nem sempre as coisas saem como a gente imagina…

Orquestra Contemporânea de Olinda no Abril Pro Rock 2007

Seguindo o barco: a Orquestra Contemporânea de Olinda fez um show lindo, em que privilegiou seu repertório nas raízes da música pernambucana, mais especificamente o frevo e o pé-de-serra. Passeando também por Pixinguinha entre um solo de rabeca e outro, o toque surreal ficou com a hilária (no bom sentido) releitura de “O Pato”, canção imortalizada como o ensaio preferido de João Gilberto para afinar seu violão (o que diz muito sobre a personalidade dele, mas aí já é outra história). Enfim, apresentação comovente e muito bonita.

Marina de La Riva (SP)

Quem destoou um bocado da noite (embora o público tenha adorado) foi a deslumbrada cantora paulistana Marina de La Riva. Tentando estabelecer desesperadamente relações de afetividade com Pernambuco, chegou ao cúmulo de tocar o hino do Estado e de soltar a seguinte pérola: “o padrasto da minha mãe é pernambucano de Floresta”, como se tal revelação fosse de uma importância cabal em seu show. Show que apelou e atirou para todos os lados: batidas de candomblé, boleros e latinidades afins, marchinhas carnavalescas como “Taí” (golpe bem baixo por sinal) que acabou resultando na mais sofrível falta de personalidade. Tá, o público adorou, e pares aos montes foram se formando no meio da multidão a dançar tangos e que tais. Mas no carnaval o público costuma adorar qualquer coisa mesmo…Essa é a grande vantagem do Rec-Beat sobre todos os outros festivais realizados em Pernambuco: tudo acaba funcionando ali, independente da qualidade do que é oferecido.

Estranha também, embora infinitamente mais digerível, foi a rave esquizofrênica armada pelos cariocas do boTECOeletro. Acabou servindo para dispersar o público, que tentou em vão escapar até o Marco Zero para conferir o encontro de Paralamas do Sucesso com a Nação Zumbi. Como a tarefa era impossível, o jeito foi se contentar com o som do boTECOeletro mesmo, que é até bem bolado, mas pareceu completamente deslocado. Embora algumas batidas fizessem você balançar o corpo mesmo contra a vontade, o final não poderia ser mais constrangedor: uma versão “electrobalacobaco” para “Rios, Pontes e Overdrives”. Não precisava…

Móveis Coloniais de Acaju no RecBeat 2008

Quem não conseguiu assistir a apresentação dos Paralamas com a Nação pode dizer sem medo de ser feliz que não perdeu nada. E aqui não é nenhum menosprezo às duas bandas, mas, antes de tudo, justiça ao excelente Móveis Coloniais de Acaju, de Brasília. Imagine se o Los Hermanos fosse bem-humorado e de bem com a vida. E se tivesse uma postura de palco assombrosa de tão boa. Não bastasse isso, e os dez (eu disse dez!) músicos da banda possuem hoje o melhor e mais criativo naipe de metais da música pop brasileira. E as letras são inteligentíssimas. Há anos que eu não sentia um ar tão saudável de renovação na música brasileira como no show deles. O público fazia o mesmo passo que os músicos executavam no palco. No fosso, jornalistas – este incluso – se esbaldavam em passos desconexos de frevo, deixando o profissionalismo de lado para nos lembrar que também somos humanos. Nem um arrastão violento que fez com que a banda interrompesse o show arranhou a apresentação deles. Nem o temporal que caiu no final, que serviu apenas para a banda prolongar ainda mais o seu histórico show no Recife. Destacar uma composição apenas seria injusto e covarde com eles. Listar todas seria cansativo e enfadonho para quem não conhece a banda. O melhor - modéstia à parte - é seguir o meu exemplo: comprar o disco deles depois do show e ouvir, ouvir, ouvir e ouvir. E nunca, jamais, em hipótese alguma na vida, perder outra apresentação deles aqui no Recife. Não é todo mundo que atende ao pedido do inconsciente coletivo das platéias nacionais de “Toca Raul” sem cair na mera piada ou gozação barata, como eles fizeram na genial releitura de “Como Vovó Já Dizia”. Aliás, todo o jogo de cena, malabarismo e teatralidade deles soam naturais, como se eles fizessem tudo aquilo que fazem no palco em casa, na hora do almoço ou antes de dormir. Nem me importei depois em pegar autógrafos deles para amigos. Garanto que você faria o mesmo no meu lugar. Uma apresentação do Móveis Coloniais de Acaju justifica o mais tresloucado dos gestos.

Ok, Gutie, você venceu: no quesito headliner, a nota do Rec-Beat 2008 é 10…

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