Outros estilos ainda buscam espaço

Fonte: Link | Autor: Rodrigo Martins | Data: 12/05/2008

Se as “bandas emo” descobriram uma forma de aparecer na rede, novos artistas de outros estilos ainda buscam um formato para ter visibilidade. Embora grande parte esteja em sites como MySpace ou Trama Virtual, há quem prefira uma página pessoal. E, na maioria dos casos, não há tanta disponibilidade de um circuito de festivais e casas de show para MPB, reggae, rap, samba, etc., principalmente fora dos grandes centros.

“Os outros estilos ganham menos visibilidade do que o rock na internet porque estão em menor número de participantes mesmo”, explica João Marcelo Bôscoli, da Trama Virtual. “Quantas cantoras de samba você conhece? Umas 20, 30... Bandas de rock existem em quantidade muito maior.”

Outra explicação, segundo o produtor Tejo Damasceno, de 32 anos, do Turbo Trio (www.myspace.com/turbotrio), é o tempo maior que o adolescente tem para ficar na frente do computador pesquisando novas músicas. Daí a predominância do rock. O grupo, que mistura funk com música eletrônica, surgiu no MySpace, mas precisou lançar um disco físico para chamar a atenção da mídia. Aí sim apareceu em revistas especializadas e nos cadernos de cultura dos jornais.

“A internet permite criar nichos. Um público menor irá acompanhar o seu trabalho. Dependendo de onde vou com o Trio, atraio 250 pessoas, mas só cem conhecem o meu trabalho. Como resultado, faço poucos shows. Não dá para viver do Trio. Faço trabalhos paralelos”, diz Damasceno.

Para Alexandre Youssef, um dos sócios do Studio SP, casa de shows independente de São Paulo, os artistas terão de se acostumar a trabalhar nesses nichos. “É preciso aceitar o fim da indústria fonográfica. Não vai mais haver um hit, onde um artista estoura para milhões de pessoas. Você terá agora que cuidar de sua carreira, utilizando a internet na divulgação, para fazer dois, três shows por mês para um grupo menor de pessoas.”

Nesse cenário, diz Youssef, há sim artistas de todos os tipos surgindo na internet. Mas que não aparecem para um grande público. “Os próprios fãs irão se tornar mais seletivos. Agora eles têm muito mais escolhas. E eles mesmo terão um contato mais próximo com o artista, para avisar que seria interessante fazer um show em sua cidade. Está acabando aquela distância entre artista e público.”

Embora não seja regra, há artistas fora do circuito de rock jovem que já fazem um certo barulho. A cantora e compositora de folk Mallu Magalhães, de apenas 15 anos, que causou bochicho no MySpace e foi parar em jornais, revistas e televisão, é um exemplo (veja entrevista com a garota na página 12). A banda de Brasília Móveis Coloniais de Acaju, que mistura rock com ritmos latinos, é outro. Eles preferiram apostar em um site próprio e têm uma comunidade no Orkut com 11 mil membros.

O grupo está na internet desde 2001, quando nem se imaginaria o lançamento de sites como MySpace e Trama Virtual. “O site foi evoluindo. Colocamos agenda, blog, as músicas para baixar. Também abrimos perfis em redes sociais de música. Mas nosso site continuou como o endereço principal”, diz o tecladista Eduardo Borém, de 26 anos. “O mais bacana é que nosso som chega a locais onde não chegaria. E conseguimos público em todo País. Fomos fazer um show no Pará e a galera sabia cantar as letras.”

O grupo de folk Vanguart, de Cuiabá, é outro veterano da internet que conta hoje com cerca de 6 mil membros em sua comunidade no Orkut. Em 2002, a banda era um homem só, o atual vocalista Hélio Flanders, de 23 anos. Ele fez uma página pessoal simples e colocou suas músicas. Em 2004, o chamaram para tocar, só que ele não tinha uma banda. Daí resolveu montar uma. “Quando o Trama Virtual estreou, coloquei para download as músicas do primeiro disco que havia gravado. E começaram a sair matérias em jornais locais. Caiu a ficha.”

Flanders mudou-se de mala e cuia para São Paulo. “Quando fazemos shows em ‘pubs’, por exemplo, de 200 pessoas umas 50 cantam as músicas”, diz ele. “É legal esse cenário hoje. Você tem muito mais contato com o seu público pelo Orkut, por exemplo. Não tem mais aquela barreira. A gente troca idéias.”

Quem ainda está no começo da carreira mas desponta como revelação, como a cantora de MPB Verônica Ferriani, de 30 anos, já começa a perceber as mudanças. Ela, que foi uma das atrações da última Virada Cultural e fará neste mês um show no Tom Jazz, aposta na interação com o público. “Tenho Orkut e respondo às mensagens dos fãs. Eles esperam que você faça isso. É importante. Gasto cerca de duas horas por dia na internet com isso.”

Como Verônica ainda não lançou o seu primeiro disco – que não deve ser disponibilizado para download – ela ainda não criou um MySpace. Mas tem um site pessoal: www.veronicaferriani.com.br. E também aposta no YouTube. Para tanto, sai com a câmera de vídeo nas mãos para registrar os shows que faz. “Peço para outras pessoas filmarem ou coloco ela em um cantinho. É uma forma legal de as pessoas me conhecerem, já que ainda não tenho nenhuma gravação.”

Outros novos artistas que começam a despontar são os cariocas do grupo Do Amor (www.myspace.com/doamor). O som é uma mistura inclassificável de ritmos. Eles estão no MySpace desde 2006 e já sentiram logo no início que a coisa havia mudado na música. “Teve uma banda de Salvador que curtiu o nosso som na web, nos chamou para tocar lá e ainda nos hospedou em sua casa”, diz o vocalista Marcelo Callado, de 28 anos.

A banda tocou em São Paulo na última Virada Cultural e, por incrível que pareça, participa do circuito de festivais de rock. “Nosso som tem uma pegada de rock com uma mistura de carimbó e axé e se encaixa em qualquer lugar”, diz. Mesmo assim, eles ainda não se sustentam pelo Do Amor. “Ainda precisamos fazer trabalhos paralelos. Mas estamos investindo na internet para virar o nosso ganha-pão.”

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