Negócio arriscado
Fonte: Correio Braziliense | Autor: Daniela Paiva | Data: 08/08/2008
Que a música é um negócio arriscado, nem o artista mais talentoso duvida. Nos dias de hoje, com a figura do olheiro – aquele que “descobria” o próximo sucesso da estação – cada vez menos requisitada por uma indústria a conta-gotas, a aposta é alta. Implica dinheiro gasto do próprio bolso, ousadia, comprometimento, esforço, seriedade. E “empreendedorismo”, palavra que distancia o artista do pedestal de antigamente, quando o processo criativo assumia ares de entidade intocada pelos incômodos financeiros. A postura está nas entrelinhas do Móveis Convida, que ocorre hoje, amanhã e domingo, no Espaço Brasil Telecom, e no Etno Mistura, hoje, no Arena Futebol Clube.
“Hoje, o artista trabalha mesmo como um pedreiro”, brinca Esdras Nogueira, saxofonista do Móveis Coloniais de Acaju, lembrando o título do primeiro álbum do trio cuiabano Macaco Bong (Artista igual pedreiro). A trupe brasiliense pega no batente no final de semana com a 9ª edição do projeto Móveis Convida. “Encaramos a banda como o nosso maior negócio. Estamos nos profissionalizando e dependemos disso financeiramente para pagar as contas”, revela.
Desde os primórdios, o decateto costuma gerenciar todos os assuntos que envolvem a existência da banda Móveis Coloniais de Acaju. No entanto, para aprimorar o processo de produção, eles resolveram partir do bê-à-bá. Em janeiro e fevereiro, trocaram o descanso semanal do sábado por aulas com um consultor para escarafunchar o processo administrativo empresarial. “É um universo que conhecíamos, mas precisávamos estudar para nos organizar. Todo empreendedorismo precisa ser bem pensado porque qualquer erro é um tiro no pé que pode dar muito problema.”
O 1º Móveis Convida ocorreu em dezembro de 2005, após o lançamento do álbum Idem, também organizado pela própria banda. O evento passou por vários formatos até o deste final de semana – três dias num teatro com capacidade inferior à do Centro Comunitário da Universidade de Brasília, onde várias edições foram realizadas. No entanto, esse é só mais um molde do Móveis Convida, e não a forma. “O bom é que não temos um modelo fixo. Vamos sempre experimentando.”
Nesta edição, o Móveis convida nove bandas para o palco do Espaço Brasil Telecom, duas delas argentinas. “A Mutandina é mais funkeada e o Coiffeur é um folk rock calminho”, descreve Esdras. Um dos destaques da programação é o power trio gaúcho instrumental Pata de Elefante, badalado nos festivais independentes do país. “É uma das bandas mais interessantes do cenário brasileiro”, afirma. Os brasilienses encerram as três noites.
Para o quarteto Etno, que lança nesta noite o álbum Revolução silenciosa em festa-show batizada de Etno Mistura, apesar da aproximação com o estilo Convida, o evento funcionará como teste. A aposta é alta. A banda traz os pernambucanos da Nação Zumbi e escala ainda o grupo Reggae a Semente e os DJs Bola e Pezão. O planejamento foi cuidadoso. Do material de divulgação ao diálogo antenado com o público. Os primeiros 1.000 pagantes baixam foto, letra, encarte, fundo de tela e MP3 da internet.
“A arte não pode ser só inspiração. É preciso que os artistas desenvolvam organização administrativa, estratégia”, enumera o baixista Iano Fazio, 24 anos, cinco a menos que Esdras. “A música não é um produto, mas a forma que você a apresenta é um produto”, complementa o baterista Tiago Palma, 25.
O vocalista da banda, Tiago Freitas, estudante de publicidade e propaganda, 25, atua há 10 anos na área de produção. Com o Etno, que surgiu em 2002 e também conta com Vítor Fonseca na guitarra, promoveu eventos pequenos. Ganhou cancha mesmo ao dividir com o pai uma produtora que trouxe bandas como Funk Como Le Gusta. “A banda funciona como negócio, mas não faz música pensando nisso”, ressalta.
Como todo negócio, o maior risco é a queda abrupta sem possibilidade de recuperação. “Nunca tivemos patrocínio, e sempre há a questão financeira, mas encaramos isso como desafio e investimento porque vale a pena tanto para a gente quanto para as bandas e a cidade”, observa Esdras. Ele conta que uma das edições do Móveis Convida no ano passado ficou no vermelho por causa de um temporal. “Acabamos estimulados a fazer melhor o próximo e conseguimos cobrir o prejuízo.”
Como prova de que o empreendedorismo pode dar certo, Móveis Coloniais de Acaju, uma das bandas mais improváveis do país – com 10 integrantes, som definido como “feijoada búlgara” – estréia na Europa ainda neste mês. O segundo álbum será produzido por Carlos Eduardo Miranda e sairá sob a chancela da Trama.
ETNO MISTURA
Festa-show com Etno, Nação Zumbi, Reggae a Semente, DJs Bola e Pezão. Hoje, às 21h, no Arena Futebol Clube ((SCES, Tc. 3, em frente à AABB; 3224-9401). Ingressos a R$ 25, à venda no local. Não recomendado para menores de 16 anos.
MÓVEIS CONVIDA
Shows de 10 bandas, no Espaço Brasil Telecom (Brasília Alvorada Hotel –SHTN; 3306-2959). Hoje, às 20h40, Deuses da Kaaba, Mutandina, Watson e Móveis Coloniais de Acaju. Amanhã, às 20h40, The Pro, Pata de Elefante, César de Paula e Móveis. Domingo,às 19h40, Leo Yoloben, Coiffeur, Diego de Moraes e Móveis. Ingressos a R$ 30 e R$ 15 (estudantes, professores, idosos e clientes celular pós-pago Brasil Telecom). Classificação indicativa livre.