Garagem | Perspectiva 2009
Fonte: Correio Braziliense | Autor: Pedro Brandt e Tiago Faria | Data: 02/01/2009
PRINCIPAL NOME DO ROCK BRASILIENSE ATUALMENTE, O MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU CHEGA AO SEGUNDO TRABALHO | Foto: Carlos Vieira/CB
A crise econômica pode até ter obrigado grandes e pequenas gravadoras a pisar no freio e repensar os investimentos para 2009. Mas, enquanto a indústria fonográfica define planos apressados de sobrevivência, o rock independente
promete uma safra de lançamentos com credenciais para anular outro tipo de recessão: o déficit de boas ideias, que toma conta das prateleiras de lojas —
virtuais ou não. No panorama internacional, álbuns aguardados com ansiedade por fãs, como o terceiro do Franz Ferdinand e o oitavo do Animal Collective,
aquecem janeiro — tradicionalmente, período fraco em novidades. Em Brasília, pelo menos 10 discos enfrentarão o desafio de espanar o desânimo que ssombrou
a cena local em 2008.
Por aqui, o mais esperado é C_mpl_te segundo do Móveis Coloniais de Acaju — o único grupo da cidade com fã-clube expressivo. Gravado nos estúdios da Trama, em São Paulo, e produzido por Carlos Eduardo Miranda (Raimundos, Skank, Cansei de Ser Sexy), o trabalho deve ser concluído e lançado, segundo os integrantes do grupo, ainda no começo deste semestre. Produzido desde 2007, o segundo do Suíte Super Luxo deve finalmente ver a luz do dia. Sapatos Bicolores, Disco Alto e Super Stereo Surf estão com discos gravados, prontos
para ir para a fábrica. Phonopop, Watson, The Pro, Lafusa e Gilbertos Come Bacon também planejam novidades. Em fevereiro, a dupla Lucy and the Popsonics
lança um single na França e, em abril, o CD A fábula (ou farsa) de dois eletropandas (de 2007) ganha estreia europeia. O disco novo começa a ser produzido no meio do ano com produção de John Ulhoa (Pato Fu).
Programado originalmente para dezembro, o segundo trabalho do carioca Nervoso (o primeiro acompanhado pela banda Os Calmantes) sofreu pequeno atraso e chega este mês. O quarteto Do Amor, também do Rio, começou a produzir sua estreia em 2008, com o produtor Chico Neves (do Bloco do eu sozinho, do
Los Hermanos). Os psicodélicos Supercordas já mostraram no MySpace uma provinha do próximo álbum. O novo do Cidadão Instigado (grupo estabelecido em
São Paulo com músicos cearenses e paulistanos) também já está adiantado estado de produção.
Pronta desde 2007, a estreia dos gaúchos Plato Divorak & Os Exciters sofreu com o descaso do selo responsável por lançá-la. O certo é que a bolacha sai mesmo esse ano. O quinteto Pública, também de Porto Alegre, já mostrou seu segundo trabalho, Como num filme sem fim, no MySpace. O cedezinho “físico” chega em breve. E por falar em gaúchos, o quarteto Superguidis desembarca
este mês em Brasília. O terceiro trabalho será gravado e produzido por Phillipe Seabra — que também assina o novo dos paraenses do Stereoscope,
gravado ano passado e aguardando lançamento.
A banda Black Drawing Chalks, da galera da Monstro Discos, de Goiânia, será produzida por Eduardo Ramos (ex-CSS, aquele mesmo com quem a turma da Lovefoxxx se desentendeu no começo de 2008). Macaco Bong entra em estúdio ainda em 2009, desta vez com Miranda como produtor. Mas a ideia é lançar
o sucessor de Artista igual pedreiro apenas no ano que vem. Os mineiros do Porcas Borboletas planejam retorno, enquanto os cuiabanos do Vanguart preparam DVD (em março) e um possível disco pela Universal.
Pequenos gigantes
Depois de um período de revelações como Vampire Weekend, Fleet Foxes e No Age, não será tão fácil prever a novíssima sensação do rock alternativo. Por enquanto, o primeiro semestre se apresenta como uma arena ocupada por pequenos gigantes — bandas que roubaram a cena em outras primaveras e hoje retornam para mais um round. Será inevitável: o posto de álbum mais paparicado do início do ano ficará com Tonight: Franz Ferdinand, dos escoceses que dominaram as pistas de dança há cinco anos com o hit Take me out. De lá para cá, o quarteto liderado por Alex Kapranos lançou o disco It could have been so much better (2005) e confirmou a posição na linha de frente do novo pop britânico. De acordo com a crítica norte-americana, a longa pausa teria rendido canções de rock com sabor de dance music.
Mais introspectivo, o terceiro do Antony and the Johnsons, The crying light, tem uma meta mais complicada: a de não frustrar as enormes expectativas dos apreciadores de I am a bird now, de 2005. A banda liderada pelo lânguido
Antony Hegarty continua a explorar tristes baladas ao piano, desta vez com um tema ainda mais ambicioso: o contraste entre paisagens da natureza e os
sentimentos humanos. Aperitivo do disco, o EP Another world conquistou
boas críticas no fim de 2008. Uma das principais referências para o vocalista, Morrissey também brigará por um lugar nas listas de melhores do ano com Years of refusal, que chega às lojas em fevereiro.
A revista inglesa Uncut, uma das principais publicações de rock do mundo, já elegeu um favorito por antecipação: Merriweather post pavillion, do trio
norte-americano Animal Collective, ganhou cotação máxima na edição de dezembro. Trata-se de um disco ainda radicalmente experimental, com forte
base eletrônica, mas que contém canções acessíveis e doces como Bluish, diferentes de tudo o que eles já gravaram. A faixa Brother sport, levada de percussão à Tropicália, impressionou os fãs em show no Festival Planeta
Terra, em novembro passado. Sem tanta margem para pirações, Andrew Bird cria um cenário bucólico para ambientar o resgate folk do delicado Noble beast, outro que já navega na web em arquivos de mp3.
Enquanto os fãs esperam a volta do Blur, do Pearl Jam e do U2, os canadenses do New Pornographers mordem as beiradas do pop com um álbum novo (ainda sem data de lançamento) e aventuras solo de dois dos principais nomes ligados ao
projeto de power pop: A.C. Newman (Get guilty) e Neko Case (Middle cyclone). Com um fãclube brasileiro recém-formado (graças à trilha sonora da microssérie Capitu), o norte-americano Beirut lança em fevereiro o EP March of the Zapotec, gravado no México. E Dan Deacon, responsável pelo show mais insano do Tim Festival de 2008, tenta repetir a dose em Bromst, agendado para março. Num ano que deverá contar com contribuições de Amy Winehouse,
Massive Attack, The Avalanches, Midlake, Wilco e Yeah Yeah Yeahs, será difícil pensar em qualquer forma de depressão.