Crítica **** | Descomplicado e perfeitinho
Fonte: Correio Braziliense | Autor: Tiago Faria | Data: 02/04/2009
O rock de Brasília parece preso numa estiagem sem fim? Experimente Móveis Coloniais de Acaju. Prestes a lançar um segundo álbum que soa tão fluente e grudento quanto a estreia do grupo Raimundos (e lá se vão 15 áridos anos…), a banda é santo remédio. Pode até deixar a impressão de que a cidade está novamente pronta para ditar regras no jogo do pop nacional. “Eu tenho quase certeza de que estou no lugar errado”, eles avisam, espertos que são, no refrão de Lista de casamento.
Impossível menosprezar a disposição de time que costuma invadir os palcos com a fúria e o suor de final de campeonato. No Brasil, poucos são capazes de performance tão alegre e generosa — o entusiasmo dos fãs, aliás, faz parte do espetáculo. Mas, apesar das divertidas idiossincrasias de Idem (2005), o Móveis ainda nos devia um disco que capturasse sua faceta hiperativa, já marcante nos shows. Não deve mais. Com um punhado de refrãos inesquecíveis e humor afiadíssimo, C_mpl_te preenche essas e outras lacunas. É um álbum perfeitinho, um retrato colorido em alta definição — que, num mundo ideal, espantaria a mesmice das paradas de sucesso e programas de auditório.
Como eles conseguiram? Com naturalidade, sim, mas não dá para descontar o auxílio de Carlos Eduardo Miranda. Um dos maiores equívocos do rock independente brasileiro é subestimar a importância de um bom produtor. A principal contribuição de Miranda, aqui, pode ser resumida numa palavra: foco. O balaio multicultural de referências do Móveis é condensado num formato sem arestas à mostra — o que pode frustrar os fãs mais ortodoxos. A concisão, ainda que sufoque sutilezas, ressalta uma personalidade forte, que agora demonstra contato firme com o ska abrasileirado dos Paralamas do Sucesso e com os climas dançantes que viraram tendência no rock contemporâneo. Mais guitarras, mais teclados, e assim nasce uma banda em sintonia com o presente.
Canções como Sem palavras e Cheia de manha, já populares nos shows, ganham arranjos mais arejados, com brincadeiras sonoras e versos ainda sinuosos, crônicas sem frágeis pretensões. “Eu sei que nada tenho a dizer, mas acabei dizendo sem querer”, admitem, em Sem palavras. Seja quando dialogam com os próprios ídolos (a ótima O tempo acena para Sobre o tempo, do Pato Fu, a atmosfera circense de Adeus lembra o Los Hermanos de Bloco do eu sozinho) seja quando narram a historinha de uma menina que imita a Sandy sem perder o tom (Cheia de manha), o Móveis reconfigura o próprio estilo com convicção. “Todo fim é um recomeço”, aconselham, em Indiferença. Ah, se todos os recomeços soassem vibrantes assim...