Com final feliz

Fonte: Correio Braziliense | Autor: Daniela Paiva e Tiago Faria | Data: 12/07/2005
A política, desta vez, ficou em segundo plano  escondida nos bastidores e em poucos espirros de indignação de artistas. Sem as camisas pretas dos fãs de heavy metal e clima de contestação, a terceira e última noite de Porão do Rock deixou de lado os discursos de protesto de sábado e revelou o lado mais acessível daquele que se transformou em um dos maiores festivais de música do Brasil. Barão Vermelho, Pato Fu, Los Hermanos e mais oito bandas fizeram imperar o tom de baile eclético, comportado e divertido. As guitarras pesadas cederam espaço para canções de amor, hinos dos anos 80 e até brincadeiras ingênuas com a platéia. Um Porão Pop rock para toda a família.

Segundo a organização, cerca de 25 mil pessoas assistiram aos shows do domingo. No total, 70 mil passaram pelo estacionamento do Mané Garrincha nos três dias. O que não significa um cenário homogêneo ao longo do evento. Eles não são estrelinhas e as músicas têm muito conteúdo, disse Grazieli Hemielewsky, 17 anos, que engrossava o coro dos fãs moderninhos dos Los Hermanos.

Para quem tem a carteirinha do fã-clube do grupo, mal importa se o quarteto não apresenta novidades. O show que o público viu no Porão, da turnê de Ventura, não trouxe surpresas. Diferentemente de Recife e Goiânia, o grupo não apresentou canções do próximo álbum, que ficou pronto no domingo. Se concentrou em um formato conhecido, com canções como Cara estranho e Quem sabe. Ficar sempre buscando ser diferente pode ser tão ruim quanto fazer um show igual aos outros, justificou-se o tecladista Bruno Medina. Foi um bom show porque a galera participou para caramba, o que é importante para o nosso show, avaliou Rodrigo Barba, baterista.

Pinga proibida
Para quem procurava músicas menos conhecidas, a saída mais acertada estava no show dos mineiros do Pato Fu. No lançamento do álbum Toda cura para todo mal, o grupo liderado por John e Fernanda Takai evitou alguns hits e se concentrou em criações mais recentes, como Anormal e Estudar pra quê?, que abriu uma performance despretensiosa e feliz, que só reprime o vigor dos momentos mais criativos com (raras) baladas como Perdendo dentes. Fernanda aproveitou os afagos do público, que cantou junto Eu e Depois, para tecer elogios a Michael Jackson e avisar que a banda não aceita mais os pedidos para tocar Pinga. Quando o Los Hermanos tocar Anna Júlia, nós tocamos Pinga, brincou. Quando lançamos a música, era o auge dos Mamonas Assassinas e fomos tratados como uma banda engraçadinha, disse ela na coletiva após o show. O Pato Fu não toca a canção desde o Rock in Rio em 2001. Até bebo pinga, mas não canto.

A etapa final ainda estava por vir. Mas o público, que acompanhou também os goianos do Violins, o hip hop divertido do Radical Sem Dó, o pop rock amoroso de voz grossa e guitarras pesadas do Reação em Cadeia, o discípulo dos Hermanos Som da Rua e os baianos do Cascadura, começou a mudar de cara com o guitar hero brasiliense Dillo d Araújo. Era a hora do rock competente e dinossauro trazer seu brilho para o Porão do Rock.

O Barão Vermelho lançou o primeiro tiro certeiro com Maior abandonado. Seria a premissa de canto na ponta da língua e clima retrô, que por si só garantiriam a recepção calorosa. Mas o Barão não mostrou apenas a atemporalidade da longa trajetória e de hits no alvo como Pedra, flor e espinho, Mais uma dose e Meus bons amigos. Em formato cru, sem metais e com guitarras potentes, conseguiu refrescar o próprio repertório e fazer um dos shows mais quentes do Porão. Até o pop grudento de Puro êxtase ganhou peso. Também apostaram no último álbum, Barão Vermelho, cujas faixas ainda permanecem desconhecidas por boa parte do público. Frejat encerrou a apresentação com uma das poucas alusões à situação atual do país. Essa música está mais atual do que nunca, disse, antes de emendar O tempo não pára, de Cazuza e Arnaldo Brandão.

Encontro de amigos
Como que para contrastar com o profissionalismo do Barão Vermelho, músicos da cidade, entre eles Jair Santiago e Digão (Raimundos), prestaram homenagem em clima de encontro de amigos ao produtor Tom Capone, morto no ano passado. Tocaram duas canções, Lugar do caralho, do Júpiter Maçã, e Hey Joe, versão d O Rappa para clássico que ficou consagrado na voz de Jimi Hendrix. Simbolicamente, a produção do festival entregou à família de Capone que estava presente, Mara, a mãe do produtor, a esposa Constança Scofield e a filha, uma guitarra.

Parecia o fim da festa, mas ainda havia uma carta nas mangas da produção: a brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. A banda de dez componentes entrou no palco por volta das 2h e mostrou que o rock da cidade (presente no show do Barão Vermelho com a versão de Quando o sol bater na janela do seu quarto, da Legião) ainda é capaz de formar público fiel. Com apresentação enérgica e curta, nem precisou se esforçar para conquistar a platéia, que fez barulho em Copacabana. Escondido no epílogo do festival, o momento de garra juvenil surpreendeu, e abriu caminho para um banho de punk rock divertido de Supla. Ano passado, o paulista abandonou o palco com poucos minutos de show, depois que uma pedra atingiu o baterista. Desta vez, venceu o round com bom humor e uma banda habilidosa. Foi o final feliz de mais de 25 horas de saudável diversidade.

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